Investimentos,  Muquirana

A INFLAÇÃO DOS RICOS

Photo by Pierre Gui on Unsplash

No mundo de economia e finanças há uma discussão bem intensa sobre os motivos pelos quais a inflação “sumiu” nos países desenvolvidos. A inflação era uma grande preocupação pós choque do petróleo nos anos 1970 e 1980, mas desde a adoção do regime de metas de inflação por várias economias ela deixou de assustar. Hoje o problema é outro, países como Japão e EUA, além da zona do Euro estão preocupados com o fato de que a inflação não sobe mesmo com juros baixos ou até mesmo zero!

Depois da crise de 2008 os bancos centrais do mundo desenvolvido começaram a criar dinheiro comprando títulos do governo. Se você ler qualquer livro de economia vai ver na lição zero que isso deveria gerar inflação, mas não foi bem o que aconteceu. As impressões maciças mal fizeram cócegas na inflação, gerando muitas críticas e pedidos de mais estímulo e juros ainda mais baixos.

Na visão Muquiranística das coisas, pedir mais estímulos e compras dos bancos centrais não vai gerar inflação. Eu acho que a inflação após os estímulos aconteceu sim, só que ela não foi uma inflação tradicional e sim uma inflação dos ricos. E digo mais, essa inflação dos ricos é amiga daqueles que buscam a independência financeira e ajudou muita gente que investe no exterior a bater sua meta para se aposentar.

A inflação old school

No mundo econômico tradicional onde os as pessoas depositam dinheiro nos bancos que depois emprestam este dinheiro, colocar mais dinheiro no sistema fazia as pessoas consumirem mais que pressionava a economia e fazia os preços subirem.

A inflação hypeness

No mundo pós crise cheio de derivativos, CDOs, investment bankers, leveraged loans, sbrubbles, wrubles e várias outras inovações, essas compras dos bancos centrais se perderam nos alfarrábios do mercado financeiro e pouco chegaram no “mundo real”. Elas serviram para inflar o preço de todos esse instrumentos exóticos e também dos ativos tradicionais como o S&P ou títulos públicos que aparecem na carteira de quem tem algum dinheiro investido. O resultado foi uma grande geração de riqueza para quem já tinha algo poupado e um debate crescente sobre desigualdade que levou a resultados eleitorais populistas como no Brexit, na eleição do Trump, na Itália e em outros países. O cidadão comum está bem bravo porque está vendo uma grande festa rolar na casa do vizinho rico sem ter sido convidado.

Pois bem, esse vizinho “rico” (mesmo que nem tão rico assim, mas melhor do quem está vendendo o almoço pra pagar o jantar) viu seu portfolio crescer muito.

O senso comum dos poupadores diz que rico não gasta, rico poupa. Portanto se não há aumento da demanda na economia porque ninguém gasta, não há inflação. Tem uma pequena pegadinha nesse argumento.

Rico gasta sim

Dizer que o rico não gasta é uma verdade parcial. Na verdade, ele gasta muito, porém esse muito é uma parcela pequena da sua renda e do seu patrimônio, ao contrário do pobre que gasta sempre tudo o que ganha. Por exemplo, se você ganha 100 reais e gasta 99 você gasta muito, mas se você ganha 100 mil e gasta 99, você não gasta quase nada e é um grande poupador.

Os ricos também são humanos e gastaram sim ao ver que seus portfolios mais que dobraram desde a crise de 2008 e do esforço dos bancos centrais em imprimirem dinheiro. A diferença é que aquilo que os ricos mais consumiram não é medido pelos índices de inflação tradicionais. A inflação do dia a dia não foi afetada, mas a inflação dos ricos mostra muito bem a bonança do pós crise. Vou dar alguns exemplos de itens que explodiram de preço nos últimos anos:

Vinhos (tem um índice de preço de vinhos caros, o Fine Wine Index)

De 210 na crise de 2009 para um pico de 450 no auge das compras do FED e 350 agora

Carros de coleção (outro índice de preços exótico, o K500 index)

O preço de uma Ferrari fabricada entre 1958 e 1973 saiu de 3 milhões de dólares em 2009 para 7 milhões hoje

Arte (gente muito rica adora arte, achei esse índice de pinturas chinesas)

O índice sai de cerca de 2,000 em 2009 para 6,000 hoje

-Ações de empresa que vendem bens de luxo

A Burberry se beneficiou duplamente, com inflação de ativos fazendo as bolsas mundiais subirem e com um aumento na venda de seus produtos

Ou seja, no pequeno mundo daqueles que se beneficiaram dos estímulos monetários a inflação aconteceu sim, e a teoria clássica econômica não deixou de valer. A inflação ainda existe, ela só não está ao alcance da maioria dos mortais.

Apesar de muitos de nós acharmos que somos meros mortais em busca da IF e não os ricos das fotos de revista, já aviso que se você tem ativos financeiros é um dos ricos sim e deveria se antenar com o que acontece com os movimentos populistas e anti globalização no mundo. Apesar disso tudo parecer distante e remoto, todos esse movimentos querem taxar as grande empresas e seus donos, nós acionistas, para custear projetos de renda mínima, perdão de dívidas dentre outros.

A última década gerou uma inflação que beneficiou muito quem consegue poupar e investir, mas pode ser que a exuberância destes anos fique para trás num futuro não tão distante. Estou cada vez mais reticente em comprar bolsa americana e com os novos aportes estou aumentando minha posição em cash e imóveis. Pode ser que eu fique chupando dedo por uns dois anos com retornos medíocres, mas estou cada vez mais preocupada com o fim da inflação dos ricos.

9 Comentários

    • sempresabado

      Obrigada pelo elogio AA40!
      A gente faz o que pode rsrsrs. Eu estou muito incomodada com o cenário lá fora e escrever é um bom jeito de organizar as ideias. Abs!

  • Executivo Investidor

    Excelente texto! Apenas um ponto importante a ser considerado. Muitos desses artigos de luxo como vinhos caros, artes e carros antigos nao sao itens de “consumo” propriamente dito e sim opcoes de investimentos, ativo dos ricos. Dessa forma como voce bem colocou acima, a grande valorizacao desses ativos contribuiu ainda mais para aumentar a riqueza dos ja ricos.

    Abs!
    http://www.executivoinvestidor.com

    • sempresabado

      Excelente observação EI. Muitos desses vinhos caros nem são bebidos, ficam sendo vendidos de leilão em leilão. Um crime! Hehehe
      O que estou vendo é um crescimento muito forte no preço dos ativos financeiros que está trazendo muito desequilibrios entre os “have” e os “have not”. Abs!

    • sempresabado

      Oi Kspov acho que usaria o conceito do livro O Milionário Mora ao Lado pra te responder. Pq se vc ganha 100 mil e gasta 105 é mais pobre do que alguém que ganha 10 e gasta 5. Veja o resumo do livro:

      Multiplique a sua idade pela sua renda anual total antes do imposto de renda, com exceção de heranças. Divida por dez. O resultado, subtraído de qualquer riqueza herdada, é o que o seu patrimônio líquido deve ser.

      De acordo com o autor do livro, se o indivíduo tiver acumulado o valor em patrimônio líquido, ele é considerado um acumulador prodigioso de riqueza; enquanto que, abaixo do valor, ele é um subacumulador de riqueza.

      Em síntese, o livro tenta mostrar que aqueles que estão com o seu patrimônio líquido garantido são, em geral, frugais, tendo bastante cautela ao gastar o seu dinheiro, sem esbanjar riqueza. Enquanto que a outra camada tende a ser gastadores e têm uma falsa vida de riqueza, geralmente atolados em muitas dívidas.

      Então minha resposta pra vc é: depende!

      Leia o livro ou então veja o resumo aqui: https://enriquecimentoprogressivo.wordpress.com/2017/03/10/como-calcular-o-patrimonio-liquido/

  • ABM

    Bem interessante observar esses indicadores do consumo de luxo. Eu acho que estou com uma postura parecida com a sua em termos de investimentos no momento. A verdade é que depois de várias considerações, concluímos que uma perda significativa no início da nossa jornada FIRE terá um impacto maior do que qualquer benefício de rentabilidade que poderíamos ter com investimento em bolsa no momento.

    • sempresabado

      Oi ABM, eu estou muito preocupada com os desequilíbrios causados pelos QEs, globalização e concentração de riqueza. Li a série do Ray Dalio do Economic Principles e foi uma epifania pra mim, ele organizou varias coisas q vinha pensando. Acho que qdo decidimos tirar o pé do risco com a festa rolando é inevitável ficar com cara de bobo por um tempo, mas como vc disse alguns deadlines pessoais são mais importantes. Estou lendo a biografia do Sam Zell e é muito legal como ele tirou o pé total no boom imobiliário dos anos 1970 e foi chamado de louco pra vir ajudar o mercado comprando os ativos a preço de banana um ano depois. Foco no longo prazo sempre se paga. Abs!

      • ABM

        Nossa, vc acredita que eu ia te perguntar se vc ja tinha lido algo dos conteúdos que o Ray Dalio produziu. Gosto muito de ouvir as análises dele. Comecei a ler um livro dele em que ele analisa is ciclos de debito. Mas a verdade eh que eu sou meio lenta com essa leitura e acabei procrastinando. Tentei apreender o que foi possivel e minhas preocupaçoes vao na linha do que vc fala, mas com um grau bem mais basico de elaboraçao teorica que o seu.

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