Elsa,  Investimentos,  Renda Fixa

Como a inflação pode atrapalhar seus planos de independência financeira?

Um dia desses um casal de amigos veio falar que chegaram a conclusão de que o nosso plano de independência financeira é muito bom e que eles querem fazer o mesmo. Um raro momento de alegria quando você vê amigos queridos saindo do Matrix e enxergando que há vida lá fora!

Eles já estavam fazendo contas de quando atingiriam a independência financeira e o quanto precisariam economizar por mês. Mas ainda são novatos no mundo de finanças e fizeram as contas com juros nominal. Faz parte, educação financeira é pouco difundida nesse país (no mundo, eu diria) e pelo menos eles estavam dispostos a aprender aos 30 anos de idade! Quantos não passam a vida inteira sem saber nada sobre isso, não é mesmo?

Expliquei pra eles o conceito de juros real da seguinte forma: imagina que você só consome uma coisa nessa vida, bananas. E que essas bananas custam 100 reais por ano. Se você tiver 1.000 reais rendendo a 10% ao ano, então vai ter um rendimento de 100 reais por ano pra comprar suas bananas. Bom, aí vc passa um ano investindo, junta seus 1.000 reais, se aposenta e quando vai comprar suas bananas descobre que agora elas custam 105 reais, porque a inflação foi 5%! Ferrou! Vc vai precisar sacar 5 reais além do rendimento, e vai passar a ter só 995 reais investidos. Aí no outro ano só vai ter 99,5 reais de rendimento e as bananas agora custam 110,25 reais. Se você continuar isso por mais alguns anos, logo vai ter todo o seu investimento consumido e a independência financeira foi por água abaixo!

Para garantir que você consiga continuar comprando suas bananas, vc precisa fazer com que o seu rendimento cresça junto com o preço das bananas. Ou seja, você precisa de um rendimento de 105 reais no primeiro ano. E você consegue se tiver o seu investimento crescendo junto com a inflação. Ou seja, você precisa que os seus 1.000 reais virem 1.050 reais no primeiro ano. Assim, com 10% sobre 1.050 reais você tem os 105 reais necessários para comprar suas bananas.

E essa é a mágica da NTN-B (ou o Tesouro IPCA, como é chamado agora): ela garante que o seu investimento sempre cresça junto com a inflação, e rende um juros sobre esse novo total (os 1.050 reais do exemplo acima). Pena que esse juros da NTN-B estão bem mais baixo que os 10%…

O problema é que eu não consigo parar por aí. E assim que expliquei de uma forma muito simples e o quanto a NTN- B era um jeito muito fácil de garantir um juros real, eu logo quis complicar a vida deles mais um pouco…

A NTN-B não te protege tanto assim

Quem começa a conhecer a NTN-B costuma se sentir super protegido contra a inflação e fica até feliz quando ela é alta. Afinal de contas, se o seu investimento é sempre corrigido pela inflação, o melhor é que a inflação exploda mesmo, porque você se sentirá mais rico (pelo menos pelo efeito psicológico de ver mais dígitos na sua conta, porque na prática não mudou nada… de que adianta ter um milhão na conta se um banana custar um milhão?).

Mas é aí que você se engana! Uma inflação muito alta pode ser mortal para o seu investimento em NTN-B. Isso porque você paga imposto de renda sobre a inflação também, então precisa incorporar isso no seu cálculo de juros real líquido!

Voltamos ao exemplo anterior. Se você investiu 1.000 a 10% de juros reais e a inflação foi de 5%, o seu retorno investimento foi corrigido para 1.050 reais e o seu rendimento nominal foi de 105 reais. Vamos simplificar e supor um imposto de renda de 15%. Então você vai pagar 7,5 reais de imposto pelo ganho com a inflação e 15,75 reais de imposto pelo seu retorno. Logo, você vai receber líquido 81,75 reais. O seu juros real foi na verdade 7,7% e não de 10%. Já precisa refazer as contas pra aposentadoria. Na verdade, pra se aposentar com um juros real de 7,7% você precisa ter investido 1.298 reais (o equivalente ao preço da banana hoje dividido por 7,7%).

Então beleza, é só trabalhar mais um pouco e juntar uma grana a mais que você tá feito. O problema é que há uma hipótese super forte por trás disso: a de que vc sabe que a inflação vai ser 5% no primeiro ano (e nos demais anos da aposentadoria também). E infelizmente, ninguém sabe com tanta antecedência assim. Os economistas até tentam, mas também erram.

Vamos supor que você errou. E a inflação foi na verdade 10%. Então os seus 1.298 reais corrigidos pela inflação foi para 1.428 reais. Com 10% de juros reais, você recebeu um rendimento de 142 reais. Mas você paga imposto de 15% sobre esses 142 e sobre o ganho com a inflação, logo seu rendimento líquido foi de 102 reais mas as suas bananas custam 110 reais agora. Ou seja, seu retorno real na verdade foi de 7,1%. E você precisava então de 1.408 reais pra se aposentar…

Pra fugir desse problema eu sugiro que você seja conservador na hora de calcular o seu retorno real líquido de impostos e usar uma expectativa de inflação bem realista. Eu trabalho com uma expectativa de inflação de 6,0%. Hoje a meta é de 4,0%, mas a história da inflação no Brasil é assustadora demais para que eu trabalhe com uma inflação de apenas 4,0%. No passado recente, 6% é uma média boa.

O IPCA é mesmo a sua inflação?

Outro problema com a NTN-B é que ela garante que o seu investimento seja protegido contra o IPCA, mas O IPCA tem uma ponderação de preços específica, que pode não ser exatamente a sua.

Acho que o exemplo mais óbvio é o peso de Educação. No IPCA esse peso é só de 5%, mas conheço muitas pessoas que gastam quase 25% do orçamento mensal com a educação dos filhos. Nos últimos anos, a inflação de educação cresceu bem acima do IPCA, então essas pessoas que gastam uma parcela muito elevada com educação vão ver seu gasto subindo muito acima do IPCA e não vão ter seu investimento completamente protegido pela inflação!

A melhor forma de corrigir essas distorções é via diversificação. No meu caso, gasto com educação é zero, mas gasto com viagens chega a ser quase 25% do meu orçamento. E esse é um gasto que segue muito melhor a cotação do dólar do que o IPCA. A solução que encontrei foi ter sempre 25% do meu patrimônio investido em dólar. Como eu faço isso, eu explico mais pra frente, mas se você estiver curioso sugiro ler esse post incrível do Frugal Simples.

Acho sempre importante ficar atento a esses pequenos detalhes para evitar que o sonho da independência financeira não seja jogado fora! Dado que o caminho pra IF é longo, há tempo de sobra para pensar nesses detalhes e se programar melhor.

E aí? Mais algum exemplo de como a inflação pode atrapalhar seus planos de IF?

Elsa

10 Comentários

  • AA40

    Já fiz muito esta análise mas em um cenário de super inflaçào (>30%aa), a NTN-B ainda é a melhor opção. As outras estarão todas under water num cenário destes do ponto de vista de retorno real.
    Concordo que não é tão segura quanto parece, mas ainda é uma das melhores opções num caso destes. Abcs

  • ABM

    Para mim, o risco maior diz respeito aos gastos com saúde, que são reajustados acima da inflaçao. Como diz o dr Drauzio Varela, na medicina os avanços tecnologicos encarecem tudo ao invés de baratear. Esse gasto sempre corresponderá a uma parcela significativa do meu orçamento e não há muita alternativa. Não há como ser criativo com esse gasto. Com moradia, educacao, alimentação, viagens, lazer, há infinitos arranjos possíveis e eu pouco me preocupo. Já com saúde, após muito tempo de análises, não há muito o que fazer. Eh um sistema quebrado nao apenas no Brasil. Eu tenho a necessidade de realizar procedimentos bem especializados todos os anos de forma preventiva. São procedimentos muito dificeis de se obter pela rede pública, meses e meses de lista de espera. Alem disso, contribuo com o custo de saude de um familiar. Optamos por uma estratégia conservadora de manter uma parte do patrimonio acumulando sem utilizar os rendimentos de forma alguma para cobrir um pico que teremos com gasto de saude a partir dos 60 anos. A mudança geográfica pode ser uma opçao neste caso, mas não quero que seja a única saída.

    • sempresabado

      Concordo em partes ABM. Não sei qual o seu tratamento, mas acredito que mesmo com a saúde da pra ser mais criativo. No último post da Muquirana até comentei como estou tomando bem menos remédio e confiando mais na possibilidade do meu corpo se recuperar sozinho!
      É claro que para alguns tratamentos não há muita saída e acho que eles podem representar um gasto relevante. Mas é um pouco imponderável né? Não quero ser tão pessimista e atrasar minha IF por medo de um problema muito grave de saúde…
      Já o custo do plano de saúde é algo relevante e esse eu prefiro ser conservadora mesmo…

  • ABM

    Acho que fiz um comentário meio confuso… Na verdade, o conservadorismo é em relaçao ao custo de seguro saude. Também não acho que vale a pena adiar planos por um problema de saúde que não existe. Os meus procedimentos especializados sao cobertos pelo seguro saude. A questao é que o custo com o seguro tende a aumentar acima da inflação e aos 59-60 anos há um reajuste muito pesado por idade. No nosso caso, que temos um custo de vida baixo, a despesa com seguro saude se destaca, entao o peso de um reajuste acima da inflação em um item do seu orçamento bem desproporcional aos demais, requer um pouco de atençao na gestao dos recursos.

    • sempresabado

      Boa ABM, entendido!
      Acho que precisamos pensar num post de “como não deixar o plano de saúde atrapalhar seu plano de IF” rs
      Com certeza é um gasto relevante com essa questão da idade sendo um pouco mais complexa mesmo!

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