Elsa,  Reflexões

Como o FIRE tem mudado minha relação com o trabalho

Nas últimas semanas tive uma série de conversas e percepções que deixaram claro que a possibilidade de independência financeira mudou muito a minha relação com o trabalho.

Do lado negativo, parece que a empolgação com o trabalho diminui. Na nossa sociedade atual (e muito evidente em São Paulo) existe quase um culto do “trabalhe com paixão” que é benéfico até certo ponto. Ele nos faz acreditar que o nosso trabalho é mais do que o local onde vamos pra ganhar dinheiro e nos sustentar. Que o trabalho nos tornar útil pra sociedade e que nossa salário é uma forma de avaliação do nosso valor pessoal. Eu acho que esse culto serve para deixar nosso dia a dia mais tolerável. O problema é que quando você conhece a comunidade FIRE, você conhece pessoas que estão aposentadas e fazendo projetos que de fato são úteis pra sociedade. E então aquele relatório que você escreve todo mês e que ninguém lê se torna muito insuportável. Mesmo que você passe 90% do seu tempo fazendo coisas úteis, os 10% do tempo gasto com inutilidades fica muito mais evidente quando você contempla uma vida com liberdade pra fazer o que acha útil 100% do tempo.

Eu percebi isso quando me perguntaram se eu to feliz no emprego novo. E minha resposta foi “é só mais um emprego”. Eu gostaria de voltar pro meu emprego antigo? Não. Gostaria de procurar um outro? Não. Eu realmente acho que estou no melhor lugar que vai me permitir chegar aonde quero mais rápido. Mas é só isso. Não tenho mais o brilho no olho, a garra, a vontade de fazer acontecer. Trabalhar nos finais de semana? Não, obrigada. Ficar até tarde e ser a última a sair pra mostrar serviço? Não, obrigada. Evitar de marcar médico no horário de trabalho? Não, obrigada.

Aprendi que a vida corporativa tem muitos empecilhos e pouca meritocracia. E que quem eu realmente admiro, cresceu fora dela. Assim, meu trabalho passou a ser apenas um meio ao meu objetivo final: a independência financeira.

Do lado positivo, eu percebi que contemplar uma vida 100% sem trabalho no futuro, te faz olhar para outros aspectos da sua vida no presente. Percebi que eu tenho aproveitado muito mais a minha vida pessoal do que os meus colegas, mesmo trabalhando tantas horas por dia como eles.

Ao meu ver, quando você aceita que vai trabalhar até os 60 anos de idade e só então se aposentar, você vive com medo. Vive com medo de não estar fazendo o máximo possível hoje pra ter uma carreira de sucesso. Vive com medo da sua reputação manchar. Vive com medo de não se destacar mais que os seus colegas. Vive com medo de nunca se tornar “chefe”. Esse medo faz com que você fique constantemente trabalhando. Precisa ir nos happy hours com pessoas que não gosta, fazer almoços caros com colegas que não suporta, precisa mandar mensagem no final de semana pra mostrar que está atento.

Mas quando você contempla que só tem mais 5 anos de trabalho pela frente, a perspectiva é outra. Você já determinou que sua carreira não vai ser longa e nem sonha mais em chegar ao C-level. Como vai ser sempre um “peão”, pouca gente sabe quem você é, então mesmo que faça uma besteira muito grande, ninguém vai ter muito incentivo pra ficar espalhando por aí. Você deixa seus colegas se matarem de trabalhar e terem burnouts, sem se preocupar que está trabalhando pouco( e ainda corre o risco de ser premiado por ter mais inteligência emocional). E o melhor: como não precisa mais garantir um network, afinal logo menos você estará fora do mercado, pode fazer um happy hour com amigos de verdade e almoçar em casa, sozinho, sem peso na consciência.

A verdade é que eu tenho tido vontade de chacoalhar muita gente ultimamente que “sofre” por conta do trabalho. Desde pessoas que estão com uma doença terminal e não se afastaram pra se sentirem úteis até pessoas que estão casando sem nem conhecer o parceiro direito, de tão pouco tempo que tem pra vida fora do trabalho. Realmente pra essas pessoas, a aposentadoria deve ser uma punição e não um prêmio, de tão cegas que estão.

Preciso destacar que essas reflexões foram feitas enquanto andava por 1:30h com o meu marido numa tarde de domingo por São Paulo. Nós tínhamos um almoço a 8km de distância de casa e decidimos ir a pé. Temos feito isso com frequência e percebemos que nos sentimos mais felizes fazendo isso do que a opção de ficar em casa assistindo Netflix e pegar um Uber pra chegar mais rápido no lugar. Esse tempo de caminhada tem nos ajudado a refletir juntos sobre diversos aspectos da vida, quase como uma sessão de terapia. E é incrível poder parar um momento para avaliar o que sentimos e o que pensamos. A coisa toda flui de uma forma muito natural e nos permitimos ficar em silêncio também. Mas é impressionante como essas caminhadas além de fazerem bem pro corpo e pro bolso, tem feito bem à nossa mente. Recomendo!

14 Comentários

  • Rubinho

    Quando se está fora da vida corporativa (ou dentro da filosofia FIRE) é tão fácil é lógico perceber como a vida nas empresas na faz sentido.
    Eu apenas deixaria a observações que é muito importante aproveitar o caminho. Sofrer no trabalho, falte 5 anos ou 20 para se aposentar, é péssimo. Faz cada segundo parecer uma eternidade. Sei que é difícil, mas aproveitar o lugar que te fará aposentar logo poderia ser algo feliz, algo positivo.

    • sempresabado

      Sim, eu concordo que é bom aproveitar o caminho. Tenho aproveitado pra conversar mais com os colegas novos que já vi que são bem interessantes e divertidos. Antes eu tinha receio de gastar tempo no café, agora vejo isso como uma forma de melhorar muito minha vida dentro do trabalho.

  • Muquirana

    Incrível seu post Elsa. Parece que muita gente vive na Matrix. Não consegue pensar a vida fora do ambiente de trabalho e não saberia o que fazer com tanto tempo livre. Acho que faz parte do sistema impregnar as pessoas com esses pensamentos corporativistas de subir as escadas corporativas. Alguns poucos vão se sobressair e muitos vão dar seus melhores anos tentando para acordar quando já for tarde demais. Não precisamos ter uma mentalidade acomodada, mas o “construir algo” não precisa ser necessariamente para os chefes e dentro do escritório. Afinal acho que uma das grandes fontes de realização genuína do ser humano é a sensação de contornar obstáculos e se superar.bjs M

    • sempresabado

      É isso mesmo Muquirana, a possibilidade de construir algo é muito mais ampla do que o espaço do emprego tradicional. Feliz mesmo é quem enxerga isso e começa a resgatar sua vida fora dele!

  • Anônimo

    Uma excelente reflexão. Vejo que estou do mesmo jeito, sem aquele brilho e sem vontade, mas não acho que mudar de emprego vai mudar isso. Não tenho a mínima vontade e não acho que é por causa de FIRE. Estaria ainda mais insatisfeito se não conhecesse o conceito FIRE.
    Isto é da vida, com o passar dos anos vamos perdendo o encanto pelas coisas e outras coisas até mais simples passam a nos atrair mais e mais.
    Abcs

  • AA40

    Uma excelente reflexão. Vejo que estou do mesmo jeito, sem aquele brilho e sem vontade, mas não acho que mudar de emprego vai mudar isso. Não tenho a mínima vontade e não acho que é por causa de FIRE. Estaria ainda mais insatisfeito se não conhecesse o conceito FIRE.
    Isto é da vida, com o passar dos anos vamos perdendo o encanto pelas coisas e outras coisas até mais simples passam a nos atrair mais e mais.
    Abcs

    • sempresabado

      Interessante AA40. Com os comentários desse post, achei que talvez uma característica comum dos Fires é que a gente fica mais desmotivado com o trabalho. Realmente as coisas mais simples estão mais atraentes no momento!

  • kspov

    Nossa que desabafo hein!!!

    A comunidade FIRE acha que a vida FIRE é o ápice…e não acho que seja bem assim. Tem muita gente que se sente feliz trabalhando, enquanto outras pessoas se sentem infeliz trabalhando. Está tudo bem. Não somos iguais, temos gostos diferentes. Uns ficam contentes com uma vida de ostentação, outros gostam de uma vida mais simples. O mundo não é do jeito que gostaríamos. E está tudo bem!!!

    Tenho um amigo que está passando por um momento de muita reflexão. Na casa dos 40 anos e não conseguiu tudo que queria. São tantas reflexões que as vezes ele começa a falar que estamos infelizes, que os churrascos que marcamos é uma forma de mascaras essa infelicidade e blábláblá….Eu disse pra ele outro dia. Já parou pra pensar que todo mundo pode estar feliz ou curtindo o momento e o infeliz aqui é vc?

    Eu to cansado de trabalhar e vontade de tirar o pé…mas ainda não dá. Tenho que vender minha liberdade por mais um bocado de dinheiro

    Sigamos aportando

    • sempresabado

      Oi Kspov! Concordo com vc que somos diferentes, mas ainda vejo os que são felizes no trabalho como minoria. Eu, como disse, não estou infeliz. Estou feliz por saber que tenho uma rota de fuga. Infeliz estaria se imaginasse que fosse um caminho sem saída. Abs

  • Mente Investidora

    Parabéns pelo “post”! Muito bem escrito e com uma mensagem bastante poderosa.

    Acho extremamente salutar que os membros da comunidade FIRE no Brasil utilizem seus espaços não somente para demonstrar estratégias de aplicação de recursos financeiros a fim de alcançar a independência financeira.

    A meu ver, o mais relevante é a questão psicológica, até porque em 99% dos casos, a jornada para a liberdade financeira levará décadas. Acredito que boa parte das pessoas que faz parte da comunidade FIRE busca, por meio do “blog”, extravasar seus pensamentos, ter alguém que lhe entende para conversar.

    Nós, em certa medida, “somos 1% da população brasileira”. Indivíduos que conseguiram enxergar a “Matrix” em que vivem e o fenômeno da “corrida dos ratos”. Ao mesmo tempo em que criamos planos para aumentar os aportes e maximizar a rentabilidade dos mesmos a fim de acelerar a formação de nosso colchão financeiro, passamos por um processo de auto-conhecimento em que avaliamos o nosso passado e presente, revendo atitudes e conceitos para fazer melhor no futuro. Isso, como pessoa, e não como investidor.

    Nós, “blogueiros FIRE”, devemos incentivar todos aqueles que não querem depender do Estado para se aposentar a criarem seus “blogs”, além de divulgar o conceito FIRE para aquelas pessoas que hoje estão imersas na vida consumista imposta pelas mídias sociais e propaganda e que só vivem o hoje.

    No que atine ao seu “post”, comungo do mesmo sentimento. Funcionário público desde 1998 com 22 anos ainda a cumprir para me aposentar aos 65 anos de idade com a Reforma da Previdência. Só consigo me aposentar antes desta idade se ganhar um prêmio muito substancial na loteria. Já internalizei que só irei me aposentar do trabalho aos 65, mas que com meu colchão financeiro formado antes disso, terei disponibilidade de fazer aquilo que gosto. Não posso ficar remoendo esta condição para o resto da vida. O ambiente de trabalho nem sempre é saudável. A expectativa de congelamento de meu salário nos próximos anos é uma possibilidade bastante realista. Nem tudo na vida está no nosso controle. Se fosse assim, seríamos deuses.

    Não é fácil. A desmotivação se faz sempre presente, mas precisamos criar uma fortaleza mental para sobrepujar tal sensação. Criar metas de realização (correr uma maratona, ler x números no ano, conhecer tantos lugares, montar um plano de liberdade financeira, etc), para mim, é a melhor maneira de fazer nossas mentes fugirem de pensamentos depressivos. Basicamente, VIVER O HOJE DA MELHOR MANEIRA POSSÍVEL COM OS OLHOS SEMPRE NO FUTURO.

    Acredito que se fizermos uma pesquisa, a nível global, sobre a satisfação dos trabalhadores com relação a seus empregos, o índice será muito baixo. Tenho para mim que a depressão será o mal deste século. Muitos irão sofrer, sendo que alguns tomarão medidas drásticas para extirpar a angústia interna (suicídio).

    Então, tenho algo a dizer a nós, FIRE:

    -VAMOS SER FELIZES JUNTOS.

    Abraço a todos.

    • sempresabado

      Excelente comentário! Da até vontade de reeditar o texto e incluir alguns pontos que vc tocou. Obrigada pela contribuição.
      Mas concordo com vc que aprender a viver melhor o hoje pode ajudar muito nessa trajetória. Fazer cada dia valer a pena. É só a gente querer! Abs

  • Sniper Investidor

    Sinto exatamente a mesma coisa, a diferença é que eu odeio meu trabalho (nunca pensei que isso fosse acontecer) e hoje ele pra mim é único e exclusivamente para receber o salário e aportar o máximo que puder pra chegar logo na FIRE.

    Um grande abraço!!

    Sniper

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.