Elsa,  FIRE,  Qualidade de Vida,  Reflexões

“Estou tranquila, posso esperar”

No meio dos preparativos para a nossa viagem desse ano, eu tive um momento de pura alegria. Eu precisava resolver um problema no rádio do carro que compramos para viajar. Vim na loja, os funcionários  fizeram algumas tentativas e  não funcionou. Eles iam precisar esperar o especialista para resolver, mas a pessoa ia demorar 20min para chegar. E eles me perguntaram “você gostaria de voltar outro dia?”. 

Recentemente eu aprendi sobre heurísticas, que são basicamente atalhos mentais. Quando nos deparamos com alguma questão, nossa mente gera uma resposta imediata. Porém, apesar de ser um processo simples, essa resposta costuma ser imperfeita. 

Assim, o meu atalho mental para o tipo de pergunta “isso vai demorar, você gostaria de voltar outro dia?” costumava ser “sim”. Eu não costumo ter “20min para esperar”, ainda mais para um problema que eu não sei se será resolvido. O meu viés cognitivo ia ser voltar correndo para o trabalho e deixar para resolver quando tivessem certeza absoluta que o problema seria resolvido. 

Mas dessa vez eu respondi “eu posso esperar, estou tranquila”. Dizer essa frase em alto e bom som despertou uma sensação esquisita em mim. Foi então que me dei conta de que era a primeira vez em anos que eu estou mesmo tranquila. Partes por conta da pandemia mas também por conta da tão sonhada aposentadoria, meus dias estão mais tranquilos. Mesmo em meio a “correria” dos preparos de uma viagem de um ano. 

Ainda não pedi demissão, ainda estou esperando alguns detalhes finais antes de pedir. Ainda estou trabalhando em regime de home office. No dia que fui na loja do carro, eu tinha trabalhado algumas boas horas pela manhã e já tinha finalizado todas as tarefas do meu dia. Depois do almoço, eu estava livre para fazer o que quisesse. 

É claro que se não fosse a pandemia, eu ainda estaria no escritório, e essa minha escapada para a loja de carro teria que acontecer ou no final de semana ou na correria do almoço (que eu provavelmente comeria um lanche para ganhar tempo e resolver o problema do carro). Mas mesmo com a pandemia, eu ia sentir necessidade de voltar logo para o meu home office e ficar on-line no Teams. Agora que sou FIRE, fica tão óbvio que não vão me demitir porque eu me ausentei uma tarde, depois de já ter entregue todo o trabalho do dia. E se demitirem, bom, eu já ia sair mesmo. 

Talvez eu me acostume logo com esse sentimento de tranquilidade. Assim como me acostumei a estar sempre correndo, e por isso estranhei ao perceber que eu puder dizer “eu posso esperar”. Mas achei importante registrar o momento de mudança para mim: O dia que eu percebi que passei do estado de muito stress, para alguém com tempo para resolver o que precisa ser resolvido. 

De resto, os planos FIRE estão de vento em popa. Compramos o carro no valor que queríamos, alugamos o outro apê (parte fundamental do nosso plano FIRE) pelo preço que queríamos. Eu estou sentindo que a sorte está do meu lado. Como também sou humana, já pensei que isso não vai durar, e que algo de ruim vai acontecer. Aí na semana seguinte que pegamos o carro, eu ralei ele no poste. Meu marido respirou aliviado “eu sabia que alguma coisa precisava dar errado, bom saber que foi só isso”. Engraçado como a gente não se permite ficar em paz e curtir a sorte, não?

Quando eu fiz intercâmbio, no “welcome coffee” para intercambistas apresentaram a U-curve. É um hipótese de um sociólogo norueguês, Sverre Lysgaard, sobre os estágios de quem vai viver uma nova cultura. São 4 fases: a fase da lua de mel, a fase da crise/choque cultural, a fase de ajuste e, finalmente, a fase de adaptação. Talvez eu esteja na fase de lua de mel com a vida FIRE. Se eu entrar na fase da crise, volto para avisa-los que essa teoria vale para o começo da vida FIRE também.

O final do dia na loja de carro foi o seguinte: fiquei um total de 2h na loja, mas o especialista resolveu o problema. Nesse meio tempo, eu fiquei lendo o livro “The Happiness Project” da Gretchen Rubin que casa perfeitamente com o momento que estou vivendo. Além da constatação de que estou tranquila, também não foi um tempo “perdido”. A vida FIRE é boa sim. 

6 Comentários

  • Suzana Mota

    Como sempre os posts de vocês são maravilhosos e reflete uma realidade impressionante que muitos de nós vivemos.

    Me sinto exatamente assim, já chego num determinado lugar com o cronômetro ligado, coração acelerado e sem paciência com pessoas que muitas vezes me atendem de forma educada e solícita, mas não na velocidade que preciso.

    Como é terrível viver assim, e digo que sequer percebo essa minha forma acelerada de viver, talvez porque eu esteja enraizada nessa rotina anos e anos e anos, hoje nem percebo mais.

    Você me fez refletir não somente essa forma estressada que vivo, mas até meu comportamento perante as pessoas, affff maria.

    • sempresabado

      Oi Suzana!
      Exato, eu tb perdia a paciência com as pessoas, mesmo quando elas eram solicitas, mas porque não faziam as coisas no meu tempo rs
      Nesse dia eu fui super bem tratada pelos funcionários da loja do carro. Me deram um lugar confortável pra sentar, café e água. Foram super atenciosos. Até sai de lá com um sentimento de carinho por eles rs e comentei com meu marido “pessoal muito bacana daquela loja”. Nunca vou saber se era eu ou eles, mas a situação toda foi muito mais prazerosa do que eu previa!
      Abs

  • kspov

    Realmente ser FIRE tem um milhão de vantagens.
    Em relação a esse lance da pressa, em querer fazer tudo rapido etc… é uma questão de consciência, e nem tanto ser FIRE. Digo isso por experiencia propria. Tenho amigos muito ricos que já vivem suas vidas FIRE e os caras super acelerados, parece que o mundo vai acabar, e convivo tb com pessoas mais simples que não tem nada, e levam a vida numa boa.

    Já faz uns 10 anos que estudo o Estoicismo, e tem uma coisa entre os estoicos que é vc saber o que está no seu controle ou fora de seu controle. Que devemos nos preocupar com aquilo que está no nosso controle, e o que está fora de nosso controle, simplesmente não se preocupe. É facil fazer isso? Claro que não! Mas abrindo a mente e praticando, com o tempo se torna mais fácil.

    No teu exemplo, levar o carro pra arrumar está no seu controle, arrumar o carro e o tempo que vai levar, não está no seu controle.

    Mas agora com esse lance do FIRE, com ctz dá pra tirar o pé de um monte de coisa, e simplesmente viver a vida de forma mais leve e feliz.

    Mas repito, da pra fazer isso sem ser FIRE.

    parabéns pelo Post e pela reflexão.

    • sempresabado

      Oi Kspov!
      Realmente dá pra fazer isso sem ser FIRE. Só que eu acho q antes eu usava o trabalho como desculpa para a correria. Agora que eu fiquei sem desculpa, parece que ficou mais fácil entregar pra Deus rs
      Adoro a filosofia estoica! Conheço muito pouco, mas o pouco que sei já achei incrível.
      Abs

  • V3Fire

    Bacana este post, eu estou numa situação bastante análoga à sua. Sou Fire mas ainda não pedi demissão. Resolvo minhas pendências do dia no trabalho, faço questão de não ficar catando mais atividades (o que já foi um exercício mental para esta nova fase Fire pré-saída do trabalho) mas ainda bate um pouco de culpa por estar procrastinando, ou não estar 100% focado no trabalho, mesmo que já tenha resolvido todas as pendências. Bizarro como a gente foi condicionado a trabalhar a 120% e ficar constantemente em stress. Há quem diga que este stress é “saudável”… enfim, só se for saudável pros acionistas da empresa. Bom, estou trabalhando internamente para, cada vez mais, não ficar com este sentimento de culpa. E sempre falo pra minha esposa, o melhor que poderia me acontecer é ser demitido, então tudo que vier é lucro!

    • sempresabado

      É bizarro mesmo como o stress faz parte da nossa vida né. É o comum. O estranho é estar calmo. Boa sorte com a próxima fase da vida FIRE! Espero que consiga pedir demissão ou ser demitido logo rs abs!

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