Muquirana,  Reflexões

MÉRITO OU SORTE ?

Photo by Markus Spiske on Unsplash

A Muquirana sempre foi uma grande defensora da meritocracia e do esforço individual, mas anda revendo esse conceito ultimamente. Depois que tive filho fiquei extremamente sensível a ver crianças em situações de sofrimento, pobreza ou violência. É inevitável ver uma criança sofrer e não sentir a dor como se fosse seu próprio filho sofrendo.

Quando vejo uma criança zanzando na rua no horário escolar ou seguindo uma mãe com outros 4 filhos na rua também no horário escolar fico me perguntando qual a chance que essa criança tem de romper com esse ciclo de pobreza. Por mais esforçada, determinada e inteligente que ela seja há uma probabilidade altíssima dela ser confinada a uma vida de privações simplesmente por ter nascido no canto errado da cidade.

Muitos da comunidade da blogosfera financeira passaram pelas mais variadas dificuldades e restrições ao longo da vida, se esforçaram em escolas públicas, juntaram dinheiro e conseguiram conforto financeiro, mas se um de nós (ou um dos leitores) saiu de uma situação de vulnerabilidade mesmo para uma boa situação atual, gostaria de ouvir o relato nos comentários. Isso sim é phoda!!

Meu ponto com isso tudo é que deveríamos nos levar menos a sério como “grandes vencedores da corrida dos ratos” e sermos gratos de não termos nascido embaixo de uma ponte e termos sido alimentados de forma adequada para não termos nenhum déficit intelectual que nos impediria de estudar e pensar nas nossas finanças.

Eu sempre me senti muito vencedora por ter ido muito bem na escola, na faculdade, ter feito um mestrado bizarramente difícil que custou mais da metade dos meus cabelos (que nunca voltaram diga-se de passagem), conseguido bons empregos, trabalhado que nem uma louca (consumindo mais cabelo) e juntado meu dinheiro com muita disciplina, mas hoje acho que isso é o MINIMO que poderia ter feito dado que nunca me faltou abrigo, alimentação, vestuário e apoio para estudar e ter passado apertos que mais moldaram meu caráter do que me desviaram do meu caminho e dado que nasci no Brasil e não em uma zona de conflito, guerra ou numa favela indiana.

Muitas vezes eu vejo relatos de como os filhos são uma pedra no caminho da independência financeira, ou as contas do Financial Samurai de que é necessário ter no mínimo 1 milhão de dólares antes de ter um filho numa cidade cara com São Francisco, ou mesmo comentários de pessoas pela vida que acham que têm a obrigação de prover uma vida cheia de estímulos, aulas, cursos, metros quadrados de espaço e gramados verdes para os filhos. Cada dia que passa ando achando isso cada vez mais bizarro e uma desculpa sem fim para que as pessoas fiquem presas a uma vida de mais trabalho e mais consumo. Falo para o Sr. Muquirano que só de não termos violência física ou verbal em casa, falta de comida abrigo ou segurança já estamos dando 90% do que o baby Muquirano precisa para se desenvolver. Os outros 10% vão vir da formação acadêmica, moral e financeira que vamos proporcionar. Quem duvida pode ler o livro “Brain Rules for Baby” e ver o que a pesquisa científica diz a respeito.

Acho que esse é um tema polêmico e pode mexer com o ego de muita gente, mas gostaria convidar a todos a refletirem sobre o que o Warren Buffett chama de “loteria do ovário” e se sentirem agradecidos pela vida que têm. Uma vez li num site de humor algo que nunca me esqueci: Se você acha ruim ser brasileiro, tomara que na próxima vida você venha paraguaio.

Um abraço,

Muquirana

14 Comentários

  • Pbara

    Hoje li no Financial Samurai o post dele sobre sorte.

    Sinceramente? Parei de acompanhar o blog dele. Ele não fez QUASE NADA DO QUE PREGA. Manteve um financiamento milionário por longos anos e contou muito com a sorte (ele próprio disse isso).

    Se foi sorte, então não sei o que ele faz escrevendo sobre finanças.

    Desculpa. Mas eu tinha que desabafar. Após tantos anos acompanhando, o cara mostrar como a sorte ajudou ele foi um baque tremendo pra mim.

    Um grande abraço e sucesso!

    • sempresabado

      Oi Pbara, eu li esse post hoje do Financial Samurai e pelo que vi ele ganhou bastante dinheiro com 2 imóveis e o blog. Não gosto muito dessa vibe do cara se “aposentar” e passar 10 anos postando 3x por semana pra fazer o site crescer. No fundo ele virou blogueiro! Mesmo assim tem conteúdos interessantes, mas desses gringos eu acho o mr money mustache quem mais vive de acordo com o que prega. Abraço!

      • Pbara

        Falou tudo! Vou ver esse que você indicou. Obrigado pela dica.

        Comecei a acompanhar o seu blog tem pouco tempo. Pelo que entendi, há duas pessoas que fazem posts, é isso? Ainda me confundo um pouco. RS.

        Um abraço.

        • sempresabado

          Espero que você goste do MMM, comecei a buscar a independência depois de conhecer o site dele.

          Sim, somos 2 amigas que escrevemos. Vc pode ver na parte de cima do post, logo acima do título quem escreveu. 🙂

          Um abraço!

  • Wat

    Existe outra grande “favela” são os pais tóxicos: Manipulam os filhos por meio do amor incondicional destes e os adestram a acreditar em sua suposta inferioridade, assim como obrigam afazeres próprios , fazem projeção dos desejos não realizados, com consequências sérias quando não obedecidas, vitimização de vida culpando filhos, competição ou inveja dos próprios filhos com supostas responsabilidades vitalícias pelo seu bem-estar, emocional, psicológico e financeiro, independente do abuso, crueldade e maldade infligido aos filhos.

    Eu me afastei depois de sugado financeiramente e abandonado pelos meus próprios pais. Essa foi uma decisão difícil e tem sido um processo muito doloroso.
    Saúde e vontade(recuperada após tratamento) é a base de levantarmos na vida, criei minha própria família e sei que irei incondicionalmente amar e apoiar minha bebê. Se nós queremos ser amados, devemos amar incondicionalmente.

    https://lifestyle.sapo.pt/familia/pais-e-filhos/artigos/mae-toxica-atencao-a-estes-sinais

    • sempresabado

      Excelente ponto que você mencionou Wat, é muito verdade e deixei de fora. Existem inúmeras situações em que os pais são um entrave ao desenvolvimento dos filhos. Parabéns por estar encarando esse processo de forma positiva. Conheço pessoas nessa situação e não é fácil. Obrigada pelo artigo, achei muito interessante e serve de alerta para todos nós. Fiz uma terapia uma vez chamada constelação familiar e me lembro claramente da terapeuta falando sobre os pais abrirem caminho para que os filhos brilhem. Boa sorte no seu caminho. Abraço!

  • sempresabado

    Adorei seu texto Muquirana!
    Realmente a gente não dá valor ao que tem, e por mais que saiba disso, a gente não prática, rs.
    É engraçado que a gente passa um bom tempo olhando pra quem tá em cima, não para quem tá embaixo. Aí reclama que não deu sorte na vida, mas a verdade é que sempre esteve do nosso lado…

    Acho lindo esse exercício que você faz de pensar fora da caixa pra criação do seu filho. E é exatamente isso: garantir a sobrevivência dele e dar uma base emocional e psíquica forte.
    Vou te falar que até estou fazendo um curso de inteligência emocional online, porque tive faculdade, mestrado, mas percebi que isso eu nunca aprendi! E é o mais valioso, inclusive para o mercado de trabalho.
    Abs
    Elsa

    • sempresabado

      Que fofa Elsinha! Obrigada pelas palavras carinhosas. Você sabe como vivemos num meio completamente bitolado e tóxico e como manter a sanidade e os pés no mundo real é um exercício contínuo. Bjs!

      • Ana

        Elsa, bom dia!
        Se possível, poderia falar em algum post sobre o curso de Inteligência Emocional? Caso eu esteja sendo invasiva, perdão.
        Ótimo texto, Muquirana. Pretendo ser mãe, e ler postagens como essa são de grande importância. Quero ser uma mãe que se importa com o ser, e não com o ter.
        Abraços!

        • sempresabado

          Oi Ana, Elsa aqui!
          Ótima ideia! Vou escrever um post sim!
          Se te interessa, estou fazendo o curso pela plataforma EdX. Totalmente de graça, com professores de Berkeley! Recomendo, bem interessante!

  • ABM

    Acho que a meritocracia em forma absoluta difícil de encontrar. A realidade se desenvolve com muito mais variáveis e inputs que aqueles sob os quais vc tem controle. A depender da sua área profissional, sorte vai ser um componente chave. Em determinado momento da ascensão profissional, o funil fica super estreito. Então depende de vc estar na hora certa no lugar certo. Acho que o mérito é crítico para se manter em determinados cargos. Quanto mais destituída a pessoa está durante a infância, mais difícil é. Impossível não, mas vai se tornando improvável a depender das barreiras de entrada.

    • sempresabado

      Oi ABM, acho que a conclusão é por aí mesmo. Se você tem condições mínimas atendidas na infância seu esforço individual responde apenas por uma parte dos resultados que você tem na vida. Todo mundo conhece gente super competente que está pior do que mereceria e gente não tão competente que está onde está pelo acaso. O que a Elsa falou sobre inteligência emocional também acho muito válido. Conheço pessoas super inteligentes mas que obtiveram resultados decepcionantes em varios aspectos da vida (profissional, pessoal, afetivo) porque não souberam lidar bem com situações diversas ou com relações interpessoais.
      Um abraço!

  • Érika

    Ótimo post, não sou feminista nem nada, mas é difícil ver um post escrito por homens com essa perspectiva. Por isso precisamos de mais mulheres em cargos de chefia e na política. Concordo com tudo que você disse, no fim, será que a meritocracia de fato existe? Qual a chance daquela criança que nasceu na favela de se tornar um grande empresário? De sair da pobreza? Sejamos francos, são pouquíssimas. O ambiente familiar é primordial no desenvolvimento das crianças, principalmente nos primeiros anos de vida.

    • sempresabado

      Oi Érika, obrigada pelo comentário tao gentil. Eu tambem estou longe de defender as causas feministas, tenho até certa preguiça do tema que gera muitas discussoes e eu odeio esses conflitos. Depois de ter filho e ver que ele sai na frente de tantas crianças que nao tem uma vida estruturada dá muita dó em ver o potencial humano se perder por falta de oportunidade e as políticas públicas focadas em temas muito secundários. Concordo 100% com voce sobre a importancia da 1a infancia. Nao sei se voce chegou a ver o documentário O Começo da Vida no Netflix. Eles mostram que o maior retorno disparado para o $ investido em políticas públicas é na gestante e no bebê. O retorno é espantoso, tipo 7 pra cada 1 investido. O que dá mais dó é que sao coisas simples, tipo alimentar a grávida e o bebê, evitar diarréia, coisas muito banais que conseguimos fazer numa casa estruturada mas que as pessoas muito pobres nao conseguem. Dai você ver que nem se discute isso no Brasil e as pessoas acham bom mesmo é dar universidade de graça e inflar a folha de servidores dá muita preguiça sabe. Temos uma ilusao em achar que tem dinheiro infinito pra tudo ao invés de pensar como alocar o dinheiro disponível da melhor maneira. Mas enfim, quem sou eu pra opinar no orçamento! Abs

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