Elsa,  Reflexões

Minha história com o dinheiro

person holding coin
Foto por maitree rimthong em Pexels.com

Nem sempre eu tomei as melhores decisões com relação ao dinheiro.

Quando eu era pequena o meu pai me ensinou que guardar dinheiro era uma boa porque me permitiria comprar algo que eu quisesse muito no futuro. Lembro até hoje das minhas escolhas pelo lanche mais barato na escola para poder juntar dinheiro.

E então quando eu juntei uma quantidade de dinheiro, ao invés de comprar algo que eu quisesse muito, eu investi. Outra coisa que meu pai me ensinou foi que comprar dólar era um bom investimento. Na época, a cotação do dólar era R$1,80, e meu pai me prometeu que se eu juntasse R$180 reais ele trocaria por $100 dólares para mim. Foi o que eu fiz, e assim fiz meu primeiro “investimento”.

Porém, algo em mim se perdeu no meio do caminho. A condição financeira da minha família começou a melhorar, eu comecei a frequentar um colégio mais elitista, e consequentemente, passei a ter amigos com pais ricos. E então eu vivia para “keep up with the joneses”. Tênis da moda, calça jeans da moda, bolsa da moda. Rapidamente incorporei que o mais importante era parecer descolada e rica, e que eu precisava dessas coisas para ser aceita.

Aí chegou o dia de escolher uma faculdade. Passei no vestibular de uma faculdade ainda mais elitista, e fui apresentada ao mercado de luxo. Bolsas de luxo, sapatos de luxo, roupas de luxo. Comecei a viajar para os Estados Unidos e cada viagem representava uma oportunidade única de comprar todas essas coisas que fariam eu parecer mais bonita, mais rica e mais admirada entre meus amigos. Não tinha como ir aos EUA e não comprar um perfume novo, óculos de sol novo, maquiagem nova, calça jeans nova, tênis novo, bolsa nova e muita roupa nova. Mesmo que o perfume que eu comprei na última viagem ainda não estivesse nem na metade, eu precisava comprar um novo. Parecia que eu nunca mais visitaria a terra do Tio Sam de novo, mas eu sempre voltava, e sempre me obrigava a comprar muito. Era exaustivo!

Tudo isso era bancado pelo meu pai, que me dava uma mesada fixa e um cartão de crédito com limite. Eu podia ter poupado a mesada que meu pai me dava, mas naquela época eu preferia gastar tudo. A mesada era generosa e o limite do cartão de crédito também. Era o suficiente para minha farra com as compras.

Como eu gostava de estudar, fui fazer um mestrado em uma faculdade pública. Acho que nesse momento as coisas começaram a mudar para mim. Voltei a conviver com pessoas de origens mais humilde, com gastos bem mais controlados que o meu. E fui percebendo que eu admirava aquelas pessoas tanto ou até mais do que os meus colegas de faculdade, vestidos de roupas de marca da cabeça aos pés.

Depois de vários anos “só” estudando, eu finalmente entrei pro mercado de trabalho e passei a ser uma assalariada. Deixei de receber mesada e usar o cartão de crédito do meu pai e passei a pagar as minhas próprias contas. Mas, morando com meu pai ainda, meu salário dava e sobrava para continuar com a minha farra consumista. Ainda mais que agora eu precisava montar um guarda-roupas de trabalho, e parecer bem sucedida.

Felizmente, essa fase acabou. Eu trabalhava na zona sul mas morava na zona norte da cidade e não aguentava mais perder horas diárias no trânsito. Comecei a fazer algumas contas e vi que talvez eu conseguiria sair da casa do meu pai e morar sozinha. Pesquisei diversos apartamentos próximos do trabalho e tudo era muito caro. Os aluguéis que encaixavam no meu bolso eram de apartamentos caindo aos pedaços, então comecei a avaliar a possibilidade de pegar um financiamento no banco e comprar um apartamento para mim. Para a entrada, eu usei meu FGTS e para a reforma, eu utilizaria uma parte do dinheiro que tinha guardado até então. Olhei a parcela do financiamento, ia ser quase 50% do meu salário, mas pensei “esse salário vai crescer, afinal, os salários sempre crescem”. Sem pensar muito, nem calcular muito, eu comprei meu apartamento.

E aí a mágica aconteceu. A reforma acabou consumindo quase todo dinheiro que eu tinha guardado e as despesas com a casa começaram a ser muito maiores do que eu planejava e já não sobrava dinheiro ao final do mês. Isso começou a me trazer uma ansiedade gigantesca. Eu estava endividada, e não tinha poupança. Meu patrimônio era negativo e se eu ficasse desempregada, não sobreviveria nem um mês com os meus gastos. Voltar a morar na casa do meu pai era uma opção, mas seria assumir que a compra do meu apartamento foi um fracasso.

Por sorte, eu tinha uma colega de trabalho que era bem Muquirana (sim, a minha parceira aqui no Sempre Sábado). Ela vivia tirando sarro das pessoas que gastavam o bônus comprando um carro novo e de quem gastava R$100,00 num almoço durante a semana. Ela também comentava sobre um cara nos EUA que poupava 70% do seu salário e conseguiu aposentar aos 30 anos de idade (o famoso Mr Money Mustache). A matemática por trás dessas contas eu conseguia entender. A única coisa que eu não sabia era como viver com apenas 30% da minha renda mensal.

Comecei a ler o blog do MMM (e diversos outros da comunidade de FIRE dos EUA) e rapidamente comecei a cortar os meus gatos. Com estava morando perto do trabalho, e conseguia ir a pé, vendi meu carro e automaticamente economizei gastos como IPVA, seguro, gasolina e estacionamento. Com os juros que eu receberia do valor investido da venda do carro era o suficiente para pagar um Uber de vez em quando. Também cancelei minha assinatura de TV a cabo, meu plano na academia, e pedi para minha diarista vir a cada duas semanas ao invés de toda semana. Além disso, mandei mensagem para meus amigos e famílias avisando que a partir de hoje eu não compraria mais presentes para ninguém e estava abrindo mão de receber também. E por fim, me propus o desafio de ficar 1 ano sem comprar nada para mim ou para minha casa. Se precisasse comprar muito alguma coisa, eu teria de arranjar o dinheiro vendendo algo que eu já tinha.

Finalmente eu comecei a ter alguma sobra de dinheiro para investir, e comecei a sonhar também com a minha aposentadoria/independência financeira. De lá para cá eu mudei de emprego e consegui uma posição que me pagasse 30% a mais do que eu recebia. Além disso, meu namorado (que agora é meu marido) se mudou para o meu apartamento e começamos a dividir as despesas da casa. Ele também passou a alugar o apartamento que era dele e divide o aluguel comigo, então tenho uma renda extra. O mágico disso tudo é que ele também está convencido em reduzir os gastos e se aposentar cedo, então não fizemos como todo mundo e continuamos morando no mesmo apartamento pequeno depois que nós casamos.

Depois de algumas decisões erradas com relação ao dinheiro, eu sinto que finalmente estou no caminho certo e que faz sentido para mim. Hoje consigo poupar 50% da minha renda, e tenho certeza que continuarei me esforçando para chegar nos 70% de economia. Com a economia de 50% e com o que eu tenho investido hoje, eu atingirei minha independência financeira em 9 anos. Ou seja, em 2027 eu terei 39 anos e não precisarei mais trabalhar por dinheiro. Essa é a meta que me motiva todos os dias a achar maneiras diferentes de poupar, investir e gerar renda. E claro, espero que esse blog seja uma fonte de motivação para continuar nessa trajetória e quem sabe antecipar a tão sonhada aposentadoria.

Elsa

12 Comentários

  • Frugalidade Hacker

    Muito legal sua história! Também comecei nessa vida FIRE via MMM. Acho que o momento em que você considerou voltar para a casa de seus pais (quando enfrentou a quasi-bancarrota) foi crucial. Sua escolha foi a de andar com as próprias pernas e “meter a cara”. A escolha de muitas outras pessoas seria manter o conforto, distanciando-se, portanto, desse desenvolvimento pessoal pelo qual você passou. Parabéns pela perseverança.

    PS: ri um pouquinho ao ler “… rapidamente comecei a cortar os meus gatos…”
    PS2: acho que a subscrição aos comentários poderia ser menos burocrática! Tenta tirar a exigência de aceitar a subscrição via email.

    • sempresabado

      FH, muito obrigada pela dica dos comentários! Já tirei aqui, espero que fique mais fácil! Valeu

      Realmente o desenvolvimento pessoal é doloroso no começo mas bem recompensador! E obrigada pelos parabéns!

      O MMM é um guru sem igual né, já converteu tanta gente ao redor do mundo, ele é incrível!

  • Investidor Inglês (@investidorIn)

    Legal sua história Elsa! Meus parabéns!

    Essa de vender o carro já passou pela minha cabeça. Mas, gosto muito deles e com isso não consegui rs. Você ainda está sem? Ou melhor, vocês?

    Eu resolvi buscar a IF de uma forma mais equilibrada. Um item que gastava demais era com carros, pois trocava a cada 2 anos, imagina?

    Vai fazer 2 que estou com meu carro velinho e contando. (espero resistir a tentação de trocar haha)

    Aqui em casa conseguimos poupar 30%. Meu objetivo é aumentar isso ai com novas fontes de rendas. Estou tentando

    • sempresabado

      Obrigada pelo comentário II!

      Eu ainda estou sem carro. Moro muito perto do trabalho e numa região central de São Paulo, então me viro super bem de bicicleta ou transporte público.

      Eu também nunca fui muito fã de carros, nunca foi um bem que tivesse um valor pra mim. Sei que para algumas pessoas é uma alegria ter um carro bom!

      Como tudo nessa vida, a gente tem que saber priorizar: sou super econômica com transporte por exemplo, mas não resisto a uma viagem! Rs

      Boa sorte na sua busca pra aumentar sua renda! Isso com certeza me ajudou muito também!

      • Investidor Inglês (@investidorIn)

        Poxa, nem fale em viagens. Difícil resistir não? Contei no blog como foi minha primeira vez na Europa. Até pretendo escrever com uma outra visão da viagem. Acho que farei isso.

        E sim, para mim é uma puta alegria ter um carro bom. E para conciliar busca a IF com carros, procuro ter um carro legal mas que não ultrapasse meus limites, que no momento é 20k.

        Assim vou me aventurando com carros velhos rs

        Boa sorte para você também no rumo a IF!

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