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O dilema do gasto com saúde e educação

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Quem tem filhos sabe que nessa época do ano temos duas surpresas desagradáveis: o reajuste da mensalidade escolar e a matrícula a pagar do ano seguinte. Fiquei chocada ao saber que o reajuste da mensalidade do baby Muquirano vai beirar os 6% sendo que a inflação esperada pro ano que vem está perto de 3,5%. O gráfico abaixo mostra que o poder de mercado das escolas fazem o reajuste das mensalidades deixar o IPCA no chinelo.

Componentes de educação no IPCA contra o próprio IPCA

Resolvi me programar e fazer um orçamento esperado para 2020. Agora estamos pagando aluguel e isso é um desembolso que piora nosso fluxo de caixa. As despesas esperadas para o ano que vem subiram bastante, principalmente com moradia e educação (além do reajuste da mensalidade, a nova série do baby Muquirano fica um pouco mais cara). Tenho até vergonha de falar aqui o quanto a família está gastando, mas estou me sentindo tipo a Luana Piovani antes de ir pra Portugal. Isso porque somos relativamente frugais, mas nossos luxos são “só” moradia, saúde e educação. Meu gasto com transporte é quase nulo, almoço em casa durante a semana e compro roupa uma vez a cada dois ou três anos. O gasto com lazer vem muito de passagem aérea que gasto para visitar minha família e agora com a folguista do sábado.

Para tentar me tranquilizar eu fiz as contas de como seria nosso orçamento FIRE na Europa. Não ia precisar de empregada, o gasto com condomínio desaparece, mas as linhas de moradia, saúde e educação seguem lá no orçamento. Dai o que é meu gasto em reais, acaba se tornando o mesmo valor convertido para euros! Como assim?? Parei pra pensar no assunto e entrei numa discussão quase filosofal com o Sr Muquirano sobre saúde e educação privados ou públicos.

Uma das vantagens mencionadas pelas pessoas que se mudam para a Europa é a gratuidade e a qualidade dos serviços de saúde e educação. No livro que li sobre a Finlândia de fato as coisas funcionam extremamente bem ao ponto de nem haver escola privada no país. Porém na Europa mediterrânea as coisas não funcionam nesse primor todo. É inegável que na média o serviço público europeu ganha de lavada do equivalente brasileiro, mas e se compararmos com o privado daqui? Nesse caso o público europeu muitas vezes é um downgrade.

Meu maior bode com a educação na cidade onde gostaria de morar é que as aulas não são no idioma oficial do país e sim na língua local que não é falada em nenhum outro lugar do mundo. Para quem não é local e nem deve ficar para sempre por lá acho isso uma perda de tempo sem fim. Eu aprendi inglês bem cedo e isso me abriu várias portas na vida. Fico pensando como sou grata à minha mãe por ter gasto seu salário de servidora pública com isso e não vejo porque privar o meu filho de uma experiência parecida. No final das contas a minha educação foi a melhor herança que a minha mãe poderia me dar, e se estou a beira do FIRE isso veio por causa de sorte de ter nascido no lugar certo, da minha educação e de eu não ter jogado essas duas coisas pelo ralo.

Concordo que muitas pessoas venceram na vida vindo de escolas públicas e isso moldou o caráter delas dando resiliência e perseverança. Respeito e admiro essas experiências, mas como isso não foi a minha, não consigo usar como parâmetro.

O gasto de saúde é outra coisa que acho complexa. Penso que um sistema de saúde público tem que trabalhar com a média e isso faz com que alguns episódios que estão nas caudas da distribuição virem fatalidade. Outra coisa é que se eu tivesse uma doença muito punk não ia querer me tratar sozinha em outro país, ia preferir voltar pro Brasil e estar perto da família e nesse caso precisaria de um plano de saúde que seja aceito aqui também.

A diferença é que esses dois gastos de saúde e educação acabam sendo um pouco menores lá do que aqui. Como a maioria das pessoas usa os serviços públicos, o privado acaba sendo um complemento (no caso da saúde) com um custo acessível. A escola lá tem 11 mensalidades ao invés de 13 que é o caso aqui, e a escola vai até as 15h. Ah, e os reajustes não existem. As escolas que já mapeei pela cidade têm o mesmo preço há 3 anos.

Essa escolha de saúde e educação privados ou públicos acaba sendo muito pessoal. Já cansei de tentar racionalizar muito no assunto e por decidi pelo menos por agora que essa é uma despesa para a vida. Dá pra dar uma otimizada aqui ou ali, mas acho que esses gastos não vão sumir logo. A ideia é não pirar no assunto. Estamos passando a escola bilíngue de dezenas de milhares de reais por mês, mas tendo a concordar com um amigo que falou uma vez que saúde e educação são a única forma de herança dedutível no imposto de renda.

8 Comentários

  • Rafael

    Estou morando na Irlanda, e vivendo esse mesmo dilema: saber que a saude publica poderia ser suficiente (tendo apenas o complemento privado), e o medo de se acontecer algo grave talvez o Brasil seria o melhor (pelos motivos que vc citou). Hoje nao tenho mais plano no Brasil, mas sempre me vem essa inseguranca.

    Voce teria algo alem a compartilhar sobre isso? Conhecido que ja passaram por situacoes semelhantes, como fazem/fizeram?

    Conheco uma pessoa que precisou operar o joelho, ele e a esposa largaram emprego e tudo por aqui e voltaram pro Brasil por 8 meses para operar e recuperar (ele mantem um plano no BR). Hoje ja voltaram e trabalham aqui, mas nao considero essa opcao muito boa…

    Obrigado!

    • sempresabado

      Oi Rafael, já vi das duas coisas. Tenho amigos nos EUA que abandonaram os convenios brasileiros e estao nesse exato momento se preparando para uma cirurgia no joelho. Os pais vao pra lá e a recuperaçao será lá mesmo. Ambos os filhos do casal nasceram em hospitais americanos e eles me parecem bem tranquilos com isso. Também conheço uma argentina que se mudou pra Espanha mas nao abriu mao da saúde privada. Ela tem um plano que cobre apenas a Espanha (barato, 50 euros por mês), mas nao tem espera para marcar consultas e exames. Também tinha um conhecido brasileiro que infartou na Espanha e infelizmente veio a falecer (sistema público). Ele chegou até a receber um transplante de coraçao. Me parece que fizeram tudo o que podiam por ele, mas infelizmente nao se recuperou.
      Eu já pesquisei bastante sobre o assunto e acho que faria um plano de saúde dos que sao aceitos no Brasil (GBG, Bupa, etc) com uma franquia alta. Esses planos funcionam tipo seguro de carro, cobrem tudo mas só depois de atingida a franquia, entao sao bem mais baratos do que um plano normal que é aceito fora e no Brasil, porque ia usar só para algo realmente sério.
      Espero que tenha ajudado. Abs!

  • Sr. Jovem

    Nunca deixe de investir em educação e saúde, talvez o primeiro você encontre até de maneira minimamente razoável no interior do Brasil de forma gratuita, porém é incomparável com ter um plano de saúde.

    A educação em outros países não é minha especialidade, porém no Brasil é inegável a diferença entre uma escola privada mediana e um colégio público estadual (independente do quão bom ele seja em comparação a outros colégios estaduais), vale muito a pena investir na educação dos seus filhos pois a educação de qualidade vai abrir um mundo de possibilidades para eles.

    Ótimo novembro!

    • sempresabado

      Oi Sr Jovem, interessante você falar isso da educaçao no interior. Acho que muitas cidades do interior hoje se parecem com a escola pública na época do meus pais. Escolas mais vazias com famílias participando e sem problemas com drogas ou violencia. Quando fui a SC fiquei impressionada com Pomerode, onde as escolas municipais dao aulas em portugues e alemao e ainda ensinam ingles! Conversei com um rapaz que era de lá e ao se mudar para a capital sentiu que o nivel da educaçao das filhas caiu muito na escola pública. É uma pena… Também há algumas ilhas de prosperidade, como o sistema de ensino de Sobral no Ceará. Acho que tirando esses casos particulares a média é bem fraca mesmo.
      Ótimo novembro pra vc tb! Abs.

  • Rumo a IF

    Gostaria de saber se vocês monetizam esse site, porquê não vi nenhuma propaganda até o momento.
    Não compensaria ?
    Até

    • sempresabado

      Olá! Não monetizamos o site. Fazemos por pura diversão. Até colocamos o Google adds uma vez mas ficou tão feio que decidimos tirar. Talvez no futuro podemos reconsiderar, mas como os custos são baixos pagamos do nosso bolso mesmo. Abs

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