Muquirana,  Reflexões

O medo de abraçar minha independência financeira

parabola
Um viajante passa por uma cidade e se depara com três pedreiros. Ele pergunta a eles o que estão fazendo. O primeiro responde: “estou assentando tijolos”. O segundo responde: “estou levantando uma parede”. O terceiro responde: “estou construindo a casa de Deus”.  Imagem de Hypotenuse Capital.

“Se a gente topasse viver uma vida mais simples a gente já teria parado”. Esse foi o desabafo do Sr. Muquirano depois do que ele mesmo classificou como a pior semana desde que começou sua empresa. Tem mais de uma semana que isso nao sai da minha cabeça e ontem escutei um podcast de um médico americano que já alcançou sua IF mas nao consegue largar a profissão. Ele falou que a independência financeira deve ser sempre nosso Plano B, e que o Plano A é a vida, e para isso devemos construir propósito, identidade e conexão. 

Na busca pela IF ficamos focados no aspecto matemático e financeiro da jornada, cortando gastos e aportando nos investimentos, mas acho que a preparação emocional para uma vida não convencional é tão importante quanto.

Não sei quando atingi minha IF, inclusive procrastino em fazer uma média da minha regra dos 4% dos investimentos com a dos imóveis para ver exatamente qual é o fluxo de caixa disponível para o projeto IF por puro medo de abraçar um estilo de vida totalmente diferente.

Nossos aluguéis cobririam uma boa vida sem que precisássemos tocar nos nossos investimentos mas simplesmente não conseguimos fazer as malas e ir.

Há vários medos envolvidos e vou levar todos de uma forma bem sincera:

-Medo de abandonar minha carreira e pular no vazio.
Depois de um tempo sabático gostaria de me dedicar a construir um “império” imobiliário, mas isso significa abandonar as certezas da profissão que escolhi há 10 anos e começar algo novo do zero.

-Medo de tirar oportunidades do meu filho
Não que o Brasil seja a terra das oportunidades, mas o desemprego entre jovens na Espanha é de mais de 26% e os salários são mais achatados por lá. Com uma boa formação aqui sei que ele pode ter a trajetória profissional que ele quiser, mas não sei como seria isso lá. Se o fato dele ser estrangeiro em um país conservador vai limitar as oportunidades futuras dele também é algo que me assusta.

-Medo de perder o vínculo com as pessoas importantes da nossa vida. 
Imagine estar longe de absolutamente todos os seus amigos e familiares. Quando você é casado e tem filhos isso assusta muito. Me assustava zero quando era solteira. Hoje uma preocupação pequena mas sincera é: quem vai ficar com o bebê se eu quiser ir ao cinema com o meu marido? (Hoje é a vovó!) Isso para não entrar nas grandes preocupações, como a perda do vínculo com tios, primos e avós. Tivemos lembranças felizes da nossa infância com nossas famílias e é duro pensar em tirar isso dele.

-Medo do julgamento das pessoas
Sempre vivi a vida “certa”: boas notas, faculdade, mestrado, ótimos empregos, viagens, patrimônio, família feliz. Trocar tudo pra viver de investir em casas na Espanha é uma “rebeldia social”. Fico pensando nas pessoas falando “que desperdício de carreira”, no dinheiro que minha mãe gastou na minha educação. Racionalmente nada disso faz sentido, mas é algo que me paralisa!

-Medo de viver uma vida cansativa e apertada 
E se eu não gostar da vida e sentir falta de alguns “luxos” do Brasil como ter ajuda com a casa, frutas tropicais o ano todo, acesso à saúde privada de ponta? Pode parecer um pensamento pequeno mas tenho uma vida bastante confortável e dá medo abrir mão dela.

Enquanto o “sabático” não vem resolvi que iria usar minha IF de um jeito positivo para melhorar minha vida presente ao invés de melhorar minha vida futura. Este ano pela primeira vez na minha carreira escolhi um trabalho não pelo que ele me pagaria e sim pelas pessoas com as quais conviveria. Vocês não imaginam como foi libertador. Eu estava em um emprego em que tinha crises de alergia de segunda a sexta tão severas que me acordavam a noite. O meu corpo simplesmente não aguentava mais. Eu estava muito infeliz mas tive que ficar quase um ano além do que queria porque descobri que estava grávida.

Troquei um salário alto, benefícios e bônus por um salário que é um terço do anterior e assumi o risco de entrar em uma sociedade. Se der certo ótimo, se não der, pelo menos me diverti, juntei mais dinheiro e tive uma experiência diferente. Só pude fazer isso porque não dependia daquele salário alto para viver, e já cheguei a poupar 80% do que recebi em dois anos antes do Mini Muq nascer.

A mensagem que quero passar é que a IF não deve ser uma jornada meramente financeira. Isso é só metade do problema! A outra metade está em enfrentramos nossos medos e descobrirmos nossas prioridades. Não dá pra passar o resto da vida na praia, em algum momento temos que achar nosso chamado.

A foto do início do artigo ilustra isso. Vi essa imagem pela primeira vez no livro Grit, da Angela Duckworth. Ela diz que essa parábola ilustra a diferença entre um emprego, uma carreira e um chamado. Hoje tenho uma carreira mas ainda quero achar meu chamado. Acho que sei qual é, mas preciso ser 100% dona do meu tempo e ter coragem para ir atrás e ver se é verdade.

4 Comentários

  • sempresabado

    Muquirana, entendo muito bem o seu medo e fico feliz de saber que a gente criou esse espaço onde podemos desabafar também!
    Realmente levar uma vida “fora da caixa” é assustador. No nosso dia a dia, estamos cercados de pessoas levando a vida comum: trabalhando sempre mais, sonhando com uma carreira de sucesso e garantido o melhor futuro possível para os filhos. O problema é que temos exemplos reais de pessoas que conseguiram isso e que acreditam que a vida tem que ser assim. Mas, por enquanto, ainda são poucos (e virtuais, rs) os exemplos de pessoas que conseguiram viver com menos e que entenderam que na vida a gente não precisa de tanto.
    Acho natural esse medo. Acho natural esses questionamentos. E é pelo fato de você se questionar tanto, que você chegou nesse caminho. Afinal, sei que você questiona porque aquelas pessoas que já ganharam tanto nunca pararam de trabalhar, mesmo odiando o trabalho. Sei que você questiona se um presidente de empresa é feliz de fato apesar do cargo. Ou se o que o seu filho precisa mesmo é de uma educação de ponta ou de pais mais presentes e realizados com a vida.
    Sabe aquele ditado que “para andar 1.000 km você precisa começar com um passo”? Você já deu muitos passos, mas ainda falta mais alguns para completar os 1.000! O que importa é que você já está no caminho, e aos poucos vai chegando muito mais perto. Uma hora você completa esses 1.000 km, tenho certeza.
    Elsa

    • sempresabado

      Você é nota 10 Elsa. Obrigada pela força. Como vc já presenciou, conviver com pessoas muito focadas na vida corporativa acabam mudando nossa noção do que é normal. Precisamos de um exercício mental muito grande para sair desse movimento de manada. E outra, as pesssoas normalmente só compartilham seu lado cor de rosa. As angústias e frustrações que acompanham esse estilo de vida costumam ficar mascaradas atrás da ostentação.

  • ABM

    Acho que você fez um roteiro das principais preocupações de muitas pessoas que cogitam se aventurar em algo novo e desconhecido. Em família temos enfrentado muitos dilemas também. Não são conselhos ou recomendações, apenas compartilho um pouco de como temos lidado com estas questões.
    Decidimos pouco a pouco destinar tempo e dedicação a nossa futura vida. Já se tornou um exercício praticado há mais de dois anos em que planejamos detalhes da mudança, discutimos nossa rotina futura, assistimos juntos vídeos de pessoas que fizeram mudança semelhante a nossa, fazemos cálculos e simulações do novo custo decerto, adquirimos habilidades e conhecimentos novos. E já nos pegamos falando, poxa a gente poderia estar fazendo isso ou aquilo se já tivéssemos mudado. Se o copo está cheio, qualquer gota a mais vai esborrar porque não tem espaço. Então percebemos que tínhamos que mudar de foco para abrir espaço mental para o novo. Isso já nos tirou da zona de conforto para de fato adiantar etapas práticas da mudança.

    – Medo de abandonar minha carreira e pular no vazio. Esse foi um grande desafio, buscar nossa identidade para além do trabalho. Infelizmente perdemos três amigos em dois anos por questões de saúde. Eh algo que pode ser bem traumático, mas que nos fez questionar de forma profunda o sentido da vida e o que de fato importa.

    – Medo de tirar oportunidades do meu filho
    Não podemos pensar no futuro do nosso filho a partir apenas do nosso presente. O paradigma profissional e do trabalho hoje já é muito diferente e há meios de se ter êxito de formas inúmeras ainda mais com pais educados e com tempo para dedicar aos filhos. Acho que uma escola razoável com pais presentes é superior a uma escola excelente com pais ausentes. Uma parte significativa de nossa mudança de vida é terceirizar o mínimo possível a educação de nossa filha.

    – Medo de perder o vínculo com as pessoas importantes da nossa vida.
    Decidimos voltar ao Brasil. Apesar de estar vivendo longe da família há muitos anos, ter uma filha pesou bastante para nessa decisão. A convivência familiar foi ressignificada e também passamos a sentir falta de alguns amigos íntimos com os quais não temos oportunidade de conviver. Viagens corresponde a um percentual alto do nosso gasto. Isso para ver a família uma vez por ano. Estamos vendo o envelhecimento de alguns familiares à distância e não estamos bem com isso. (Isso é uma vivência muito particular e não pode ser generalizada. Não há certo e errado quanto a esse tema)
    – Medo do julgamento das pessoas
    As pessoas não vão nos apoiar. Então vamos fazer e ponto. Só sendo quem nós queremos ser pode ajudá-los a ver sentido em nossas escolhas.
    – Medo de viver uma vida cansativa e apertada
    Estamos cortando tudo há tempos de forma voluntária. A questão é que pouco a pouco conseguimos nos apegar àquilo que vamos ganhar e notamos que estamos em desvantagem. Hoje temos um plano de saúde top. Temos o celular pessoal dos nossos médicos e eles fazem consultas longas e com qualidade. Entretanto 70% desse acompanhamento médico se deve a perda de saúde por estilo de vida. E no ritmo que vamos isso só piora a cada dia. Não temos controle sobre saúde, mas decidimos não viver em função do medo de algo que ainda não é real, no caso um problema de saúde grave.

    O tempo vai passando e o frio na barriga aumenta, mas no ponto que estamos, estou confiante de que vai dar certo.

    • sempresabado

      Olá ABM, obrigada por compartilhar suas reflexões conosco nesse tema.

      Isso que você fez de começar a fazer planos reais para sua nova etapa de vida é muito importante. Nos estamos procrastinando em relação a isso e o tempo só vai passando. Acho que chega uma hora em que metas tangíveis e reais devem ser traçadas e como você bem disse, temos que abrir espaço mental para o novo, pois há tantas obrigações, rotinas e deveres que fica difícil encaixar tempo para as novas metas.

      Nao poderia concordar mais com o que você listou em todos os tópicos. Das pessoas de fora muitas vezes só veremos julgamento e críticas, pois a grande maioria das pessoas segue o modelo “tradicional” de vida. Nao sei como é a sua família, mas a minha é muito conservadora e ainda nem tive coragem de abordar a vontade dessa mudança de vida!

      Estamos curiosas aqui para seus planos futuros, e claro, torcendo muito para que eles se concretizem! Boa sorte na sua jornada!

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