Carreira,  Elsa,  Reflexões

O medo de parar

Quando minha vida FIRE ainda estava distante, lembro de ouvir o MadFientist dizendo no seu podcast que quando ele atingiu a independência financeira, ficou trabalhando mais um ano para garantir um dinheirinho a mais. E eu pensei “que louco, quando eu atingir minha meta, eu saio no dia seguinte!”. Porém, semana passada, em uma das caminhadas habituais e terapêuticas com o meu marido, me dei conta que a gente tava indo pro mesmo caminho.

Para explicar como eu percebi isso, antes eu tenho que explicar que a pandemia mudou muito minha rotina de trabalho. Aos poucos eu fui retomando o controle da minha vida, dos meus horários e do meu espaço. Estou fazendo Home Office desde março, e devo dizer que a experiência tem sido muito positiva para mim. É impressionante o ganho de eficiência com o Home Office. Esse domingo recebemos alguns amigos para jantar. Preparei tudo: entrada, prato principal e sobremesa. Tomamos cerveja, o papo tava ótimo e eles foram embora tarde. Olhei para a cozinha e tava aquela bagunça. Na vida pré-pandemia, eu me obrigaria a deixar tudo arrumado para começar a semana com a casa limpa. Pior coisa pra mim era voltar pra casa em plena segunda-feira, exausta de um dia de trabalho, e ter que arrumar a bagunça do final de semana. Mas no mundo pós-pandemia, eu deixei a cozinha bagunçada e fui dormir. Eu sabia que a segunda-feira de manhã seria tranquila no trabalho, então aproveitei pra fazer alguns calls enquanto arrumava a cozinha pela manhã. Isso me trouxe uma sensação de alegria incrível, a vida ganhou um ritmo melhor e não me sinto mais uma equilibrista de pratos louca, como toda mulher moderna se sentia.

Além disso, se a pandemia mudou minha rotina de trabalho, a perspectiva FIRE mudou muito minha forma de trabalhar (como já até comentei nesse post). Durante a pandemia, eu li uma série de artigos chamada The Gervais Principle, que foi um dos textos mais brilhantes e esclarecedores sobre a vida corporativa que eu já li. A série parte do pressuposto que toda corporação é composta de Loosers (trabalhadores do baixo clero, que recebem menos do que entregam para a empresa), Clueless (trabalhadores num nível acima, que acreditam que seu trabalho tem uma importância maior do que de fato tem, e que caíram direitinho no conto corporativo, o típico cara que veste a camisa da empresa, mas não é sócio dela) e por fim os Psicopatas (os donos da empresa, quem de fato lucra com ela). Basicamente para a empresa é ótimo ter Clueless porque eles criam uma cultura de produtividade na empresa. Se você é um Looser produtivo, pode ser promovido a Clueless, e os Psicopatas continuam lucrando com você. Mas nem todo Looser cai nesse conto, e percebe logo que vai sempre receber menos do que entrega, mesmo promovido a Clueless. Esses são os Lossers improdutivos, que focam em encontrar satisfação pessoal fora da empresa. Bom, essa breve introdução foi pra dizer que eu acredito que assim que comecei a trilhar o caminho FIRE, a ideia de me tornar uma Clueless perdeu total o apelo pra mim. Passei então de Looser produtiva, para uma Looser com baixa produtividade. Menos stress, mesmo salário.

Assim, com uma vida mais eficiente e menos estressada, é claro que começaram os papos entre nós de “e se a gente ao invés de pedir demissão, propor de ficar de Home Office pra sempre?”. Ou então “se não mandarem a gente voltar pro escritório, acho que não faz sentido a gente sair”. A verdade por trás de tudo isso? Medo de parar. Medo de perder o salário que pinga todo mês. E a famosa conta “se a gente ficar mais um ano, a gente vai juntar mais X reais!”.

Uma coisa que eu acho que nenhum blog FIRE deixou claro, é que provavelmente você vai atingir sua meta FIRE no auge da sua carreira. Isso significa que você vai chegar lá no auge do seu salário também. Nesse momento, desempenhar sua função já é mais fácil do que quando você começou, então seu salário ajustado pelo nível de esforço vai ser enorme. Talvez essa equação ganhou esteroides agora com a pandemia. Então é difícil mesmo encarar essa decisão de parar!

Na nossa última caminhada, a gente já estava bolando planos de como continuar trabalhando remotamente até que eu falei “pera lá, mas porque isso agora?”. Perguntei para o meu marido o que essa quantia X a mais de dinheiro permitiria a gente fazer. Comprar uma casa maior? Sim, mas no fundo não queremos. Eu detesto manutenção da casa, e eu sinto uma liberdade imensa em viver com pouco. É difícil sustentar a decisão de viver em 26m2 quando todo mundo parece te dizer que isso é uma loucura. Mas eu já vivi em 200m2 e a felicidade não estava lá também. Pagar uma academia cara, já que teremos mais tempo? Sim, mas a verdade é que a gente ama nossa professora de ioga da praça, que é de graça. Viajar mais? Sim, sem dúvidas, esse é um ponto fraco pra gente. E justamente por ser um ponto fraco, acho que não podemos torná-lo um “ponto forte”. Explico. Já vi algum blogueiro defender que você deveria parar antes de atingir sua meta FIRE. A razão para isso é pra te manter produtivo na vida pós-FIRE. Eu tenho vários sonhos pra vida pós FIRE que vão demandar muito trabalho. E se eu tiver como motivação “viajar mais”, sei que eles tem maiores chances de sair do papel. Talvez ficar um ano a mais é garantir uma vida pós-FIRE de mais sofá e Netflix. E não é bem isso que eu almejo para a minha vida.

Então, caras leitoras e caros leitores, a Elsa aqui está com medo sim de parar. Mas dizem que há uma diferença entre destemido e corajoso. Destemido é quem não tem medo de nada. Corajoso é aquele que enfrenta seus medos. Para os próximos meses, espero aumentar minha dose de coragem apesar dos medos, e em breve viver a vida FIRE que eu tanto sonhei!

12 Comentários

  • Viver Sem Pressa

    Oi Elsa, eu também tenho esse medo rs.
    Ao contrário de você, esta pandemia deixou a minha vida bem bagunçada, minhas duas filhas andam estressadas, ficam bravas por coisa pequena, elas também estão sentindo o efeito do isolamento, já que a creche está parada desde março, não estamos encontrando familiares e amigos, e elas não saem todos os dias de casa, ou seja, o tédio é o maior propulsor para que elas fiquem irritadiças.
    O meu trabalho está retornando aos poucos, ainda permaneço a maior parte do tempo em teletrabalho, mas confesso que quando entrei na minha sala depois de quase 8 meses trabalhando de casa, senti saudades, foi gostoso trabalhar lá e me senti bastante produtiva.
    Isso me acendeu uma dúvida de que talvez eu não abandone a minha carreira quando chegar o momento de declarar FIRE? Como você bem escreveu, eu já estou num cargo considerado alto na minha empresa, meu trabalho não é ruim, nem minha equipe, gosto de fazer a gestão de pessoas e acho que sou uma boa líder.
    Mas isso pode ser só uma desculpa para o medo que sinto. Talvez. Só vou saber quando chegar lá rsrs.
    Beijos.

    • sempresabado

      Oi Yuka!
      Realmente as crianças estão sofrendo muito né? Minha afilhada está claramente mais irritada, morro de dó! Queria tanto que ela voltasse pra escola logo!
      Interessante que vc se sentiu bem ao voltar pro escritório! Ontem eu tive uma reunião com a minha equipe toda e já foi o suficiente para eu matar a saudades e perceber que eu não quero mais estar lá mesmo, rs. Eu acho que já cansei das mesas discussões, dos mesmos problemas. Mas vamos ver, tenho alguns poucos meses pela frente pra tomar a decisão final. Espero que a coragem seja grande! Beijos

  • Anônima

    Elsa olá. Me identifiquei muito com seu texto.
    Eu estou vivendo exatamente isso. De fato, já cheguei lá, ou seja, já atingi as reservas necessárias para colocar em prática meu plano FIRE há mais de um ano.
    Mas agora que estou pronta, me bateu um medo enorme. Medo da situação econômica e política no Brasil, medo de me morrer de tédio, medo de deixar de ser uma pessoa necessária, medo da reação da família e amigos e etc….
    Por outro lado penso todos dos dias naquilo que estou deixando de viver por conta destes “medos”. Meus planos eram: poder ficar em casa (em meu trabalho é zero possibilidade de home office) , cuidar do meu filho pequeno e estar presente na sua infância, cuidar mais da minha saúde, estudar coisas que gosto e fazer algumas viagens.
    Bom ainda não consegui resolver esse impasse e me sinto um pouco frustrada com tudo isso. No fundo, fico esperando acontecer algo que me obrigue parar, como uma demissão, por exemplo.
    Sinceramente, no inicio da jornada achei que seria uma decisão fácil.

    • sempresabado

      Oi Anon!
      Vc citou vários medos que eu tenho também! Estou lendo um livro sobre anatomia da depressão e vi que uma das principais causa é o isolamento. Da um medo de ser uma aposentada isolada né? Rs mas eu estou otimista que a vida vai ser incrível, a liberdade vai me permitir estar mais perto das pessoas que amo, e vou me manter produtiva!
      Acho seus planos para a vida pos-Fire bem comuns na comunidade. No fundo, é ter mais tempo para aquilo que realmente importa né?
      Engraçado você torcer por uma demissão rs sabia que tem um livro do Financial Samurai sobre como ser demitido? Não li, mas achei interessante pra quem não tem coragem de tomar essa decisão sozinha! Talvez te ajude!
      Beijos

  • Renato

    Rick Gervais? O cara é um dos melhores comediantes do mundo e sou muito fã. Ele está certíssimo.
    Recomendo a todos assistirem o seriado THE OFFICE no netflix (americano). Vcs vao gostar muito!

    • sempresabado

      Oi Renato! O texto é de um blogueiro que faz uma análise da série The Office! A série é um espetáculo mesmo. Eu li porque terminei a série, me senti órfã, e fui buscar mais informação na internet. Cheguei nessa análise fantástica! Se vc curte a série, com certeza vai gostar desses artigos. Abs!

  • Aposente Cedo

    Essa decisão é mesmo muuuuito difícil. Como seria bom se pudéssemos simplesmente acordar com a empresa: “de agora em diante, vou trabalhar 10/20/30h por semana” e receber só o proporcional a isso, especialmente de home-office. Uma gradatividade seria um excelente teste para largar o osso com menos medo do futuro e já poder desfrutar melhor.

    Desejo que faça uma sabia escolha e nos mantenha atualizado!

    Abraço

    • sempresabado

      Oi AC! Vou manter vcs atualizados, claro! Espero que a decisão seja sabia mesmo…
      As vezes eu penso como se fosse só um sabático, rs, e se eu quiser voltar depois eu volto. Mas concordo com vc que uma alternativa intermediária seria interessante!
      Abs

  • Armando

    Os posts de vocês são os melhores da finansfera! Sensacional. Se, por acaso, a coragem bater e, realmente, decidir parar o nine-to-five, vocês deveriam se dedicar ao ato de escrever, especialmente sobre os dilemas cotidianos da vida urbana. Pode surgir coisa muito boa daí! Parabéns.

    • sempresabado

      Oi Armando! Obrigada pelo comentário, escrever tem sido um prazer descoberto recentemente. Bom saber que está sendo útil tb! Abs

  • Vagabundo

    A questão é que FIRE é um mundo de incertezas. É muito mais seguro simplesmente trabalhar até os 65 anos. O que me ajudou na hora H foi que eu simplesmente segui o plano que tinha, apesar de estar cagando de medo. Agora é a hora de vc pensar se FIRE é mesmo pra vc, se a grana vai ser suficiente e tudo mais. Na hora H é um turbilhão de pensamentos, nao dá pra raciocinar, vc tem que pegar a cartilha que escreveu antes e seguir à risca. É preciso muita coragem. Boa sorte!

    • sempresabado

      Exato Vagabundo! O jogo mais seguro é continuar trabalhando. E concordo com vc. Eu sei que meu plano foi feito de forma racional ao longo dos últimos anos, é só aprender a deixar a emoção de lado agora e segui-lo. Obrigada!

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