Elsa,  Gastos,  Saúde

O que não tem remédio, remediado está

No meu post sob antecipar a aposentadoria, recebi um comentário do Frugal Simples (valeu!) chamando atenção para a inflação alta dos planos de saúde. Eu já tinha pesquisado sobre opções de planos, até para ter uma idéia dos valores para colocar na minha planilha de contas pra aposentadoria. Mas confesso que ainda não tinha refinado as contas para incorporar essa inflação acima do normal e as mudanças de custo por faixa de renda.

Resolvi refinar as contas para isso e cheguei a números tão absurdos que finalmente entendi a preocupação da comunidade com o tema saúde. Até entendi melhor as pessoas que ficam no emprego por medo de perderem o plano de saúde, rs. A conclusão é que os números são realmente tão absurdos que não há o que fazer, justificando a escolha do título desse post.

Eu fiz uma simulação partindo de um plano de saúde razoável, que custa R$500 reais por mês, para uma pessoa de 32 anos (como eu).

Primeira coisa a considerar foram os reajustes dos planos de saúde. Aprendi que a ANS limita o reajuste dos planos de saúde familiares e individuais, e mesmo assim ficaram um pouco acima da inflação (em 2019, a inflação foi um pouco acima de 4% enquanto o reajuste máximo da ANS ficou em 7%). O porém é que é praticamente IMPOSSÍVEL contratar um plano de saúde familiar justamente por conta desse limite dos reajustes.

Agora, as opções mais fáceis são contratar plano de saúde por adesão (que é de acordo com a sua profissão) ou por CNPJ, sendo que ambos não tem os reajustes regulados. Ou seja, o céu é o limite para os reajustes desses planos! Para minha “sorte”, meu marido tem uma empresa então conseguimos cotar pelo CNPJ, que sai um pouco mais em conta que por adesão. Mas logo descobri que para o meu azar, enquanto o reajuste dos planos familiares ficaram em 7% em 2019, o reajuste dos planos com CNPJ ou por adesão foram de 20%! Vi em outro estudo que em média os reajustes dos planos de saúde ficaram 10 pontos percentuais acima da inflação nos últimos anos, então realmente pareceu algo pra se levar em conta.

Outra coisa que considerei nas minhas simulações foram as mudanças por faixa de idade. Abaixo coloquei o aumento esperado do plano por faixa de idade que encontrei no site da Amil:

34 anos + 5%

39 anos +10%

44 anos +25%

49 anos +10%

54 anos +25%

59 anos +75% (!!!)

Coloquei tudo na planilha e trouxe a valor presente considerando uma inflação de 4%. Considerando uma taxa de retirada de 3% (que é o que eu pretendo usar na minha aposentadoria), o patrimônio que me deixaria tranquila para ter um plano de saúde que hoje custa R$500 por mês mas vai sofrer reajustes de 10 pontos percentuais acima da inflação e mais todos os reajustes por faixa de idade, seria um patrimônio de R$8milhões. Só para esse gasto com saúde. Ainda precisaria de mais um pouco pra os demais gastos.

Mais incrível ainda é que o meu gasto com plano de saúde chegaria a representar 80% dos meus gastos mensais quando chegasse aos 59 anos de idade!!!

Então, essas contas me levaram a duas conclusões (i) no meu caso, não adianta trabalhar 1 ano a mais pra ter essa garantia (precisaria de décadas pra ser sincera) e (ii) claramente o sistema de planos de saúde no Brasil vai ter que passar por alguma reforma ou algum redesenho. O chute da Muquirana é que vamos migrar pra um sistema de franquia, como em alguns países e que tem preços bem mais acessíveis. Afinal, não faz sentido imaginar que uma pessoa FIRE vai ter problemas pra pagar o plano de saúde e todo o resto da população (inclusive as empresas) estarão pagando preços absurdos por planos numa boa, sem questionar. O produto se tornará inviável com o tempo.

Assim, solução pro meu caso parece voltar ao ponto inicial: buscar a aposentadoria cedo mesmo. Assim terei mais tempo pra cuidar da saúde, menos stress no trabalho e consequentemente mais saúde. Isso sim é controlável. Todo o resto é ilusão.

21 Comentários

    • sempresabado

      Incrível né Anônimo! Eu vi q tem aumentado o número de pessoas declarando falência (nem sabia q era possível isso!) pra se livrar de dívidas com hospitais. Realmente é um problema sem fim!

  • Aposente Cedo

    Oi Elsa, já trabalhei em uma grande empresa de plano de saúde e sei bem os gastos que elas tem. Acho improvável uma mudança radical nos planos de saúde num horizonte curto, pois a Lei 9.656, de 1998, já foi essa revolução (que ainda é recente em termos legislativos).
    A ANS praticamente legisla anualmente aumentando o rol de procedimentos obrigatórios que todos os planos têm que cobrir.

    Por outro lado, não bastassem os reajustes anuais, os reajustes por faixa etária até os 59 anos são imensos porque o Estatuto do Idoso (lei de 2001, ou seja, após a lei 9.646/98) proíbe reajuste por faixa etária para idosos – a lei considera idoso a partir de 60 anos. Foi um tiro que saiu pela culatra. Enquanto os idosos acham que estão sendo “protegidos”, a massa trabalhadora, em idade ativa (abaixo de 60 anos) paga a conta por essa ausência de reajuste na terceira idade. Inocência de nossos deputados e senadores ao acharem que a empresa de plano de saúde ia aceitar o veto de reajuste na terceira idade e não iria repassar os custos para o próprio consumidor.

    Até saberia dar sugestões pra minimizar o problema da saúde privada, mas isso daria um livro, portanto, deixo minhas sugestões/alternativas para o FIRE:

    1) calcular as projeções destes gastos com plano de saúde e botar na sua meta Fire;
    2) pensar em residir em algum país que tenha saúde pública de qualidade;
    3) pensar em residir em cidades pequenas e médias do Brasil que não tenham um abismo entre a saúde pública e privada tão grande quanto nas capitais;
    4) investir muito na saúde preventiva, torcer para não ter acidentes e contar só com a rede pública;
    5) estudar alternativas de seguros que cubram somente internações hospitalares privadas, pois um leito hospitalar (especialmente UTI), na maioria das vezes, é o maior custo de todos (muito mais que consultas, exames e que a maioria das cirurgias).

    Abraço,
    http://www.aposentecedo.com

    • Muquirana

      Oi AC, pra vc trabalhou na área recomendo esse livro: https://www.amazon.com/dp/B01IOHQ9LO/ref=dp-kindle-redirect?_encoding=UTF8&btkr=1

      Além do congresso engessar os seguros temos a presença do mercado financeiro “otimizando” os hospitais e extraindo renda dos pacientes e seguradoras para os investidores. Eu acredito no capitalismo e na economia liberal, mas o que foi feito no mercado de saúde americano é pornografico. Infelizmente vejo o Brasil trilhando o mesmo caminho.
      Aqui acho que ainda temos outro problema, de elementos culturais da malandragem que encarecem muito o seguro (exames inúteis, quebrar nota pra pedir 2 reembolsos, passar tratamento estético como consulta, etc). Acho que isso só melhora com franquia e co-participação porque o segurado tem que sentir na pele o custo dessa farra médica.

    • sempresabado

      Que comentário incrível Aposente Cedo! Obrigada pela contribuição!
      E adorei suas dicas. Sabe que essa questão de viver em cidades menores começou a chamar minha atenção mesmo? Estava vendo que conforme eu fico mais velha, tenho menos paciência pra cidade grande. Imagino como essa paciência não vai diminuir ainda mais na terceira idade, rs. Interessante mesmo que nesses lugares o abismo não é tão grande. Fora que um plano de saúde nacional quando vc não reside em SP é mais barato tb. Abs!

      • @investindo_em_fii

        Se me permite adicionar informação. Moro no interior e aqui tem uma boa faculdade de Medicina. 2 hospitais públicos. Um deles mantido pela Universidade. Isso eleva a qualidade do serviço.
        A rede pública aqui é muito boa, funciona e relativamente rápido. Em maio minha tia ficou 7 dias internada e vi como funciona.
        Talvez valha sim a pena pesquisar cidades do interior. E se tem faculdade de Medicina com hospital universitário. Talvez ajude.

      • Aposente Cedo

        Obrigado, Sempre Sabado. Estou aqui pra tentar enriquecer o debate. Tem mais de 10 anos que não atuo na área de saúde suplementar, mas passei o que seriam meus pensamentos sobre o tema. Só complementando, apesar de hoje eu residir numa cidade média/grande, seria inviável minha família depender da rede pública aqui. Apesar de sermos todos jovens e saudáveis, prefiro pagar pra não usar.
        Abraço

  • ABM

    Elsa, ha uns dois anos vi uma entrevista interessante com warren buffet sobre esse tema. Ele falava que estava preocupado com o custo beneficio da saude, aumento preocupante da relaçao gastos saude x PIB. Parece que ele estava propondo a criaçao de um grupo de estudo com gente relevante para vizualizar saidas / alternativas para essa situaçao. Nao sei se a coisa avançou. Ha uns meses eu cheguei a uma conclusão bem parecida com a sua. Mas quando vi que em 5 anos a coisa ja se tornaria inviavel em termos da capacidade da renda passiva cobrir a despesa, nao fui adiante nos calculos. Tenho tentando pensar alternativas a cenario. Se vc quiser continuar amadurecendo o tema, gostaria de trocar uma ideia a esse respeito, seria bem legal ouvir algumas criticas e outras ideias.

    • sempresabado

      Oi ABM! Claro, adoraria falar mais sobre o tema! A Muquirana já estudou bastante sobre o assunto tb. Realmente ir até o fim com os cálculos provavelmente vc ia chegar numa situação tão esdrúxula quanto a minha rs
      Abs!

  • Vagabundo

    Oi Elsa, também fiz esses cálculos, vamos ver se batem os numeros mais ou menos ? Ao invés de 500 com 32, parti de 1000 reais aos 45 anos. Em valor presente calculei o seguinte:

    49 anos – 1100,00 com 1 filho
    54 anos – 1375,00
    59 anos – 2406,25
    65 anos – 2646,00 daqui pra frente, só um casal
    69 anos – 2911,00
    74 anos – 3500,00
    79 anos – 4000,00
    84 anos – 5100,00
    89 anos – 6000,00

    Como base coloquei que ouvi de alguém que seus pais na casa dos 70 anos pagavam 3 mil por mês.
    Além disso, a partir dos 80 considero que vou pra uma casa de repouso pagando 10 mil por mês.
    Esse modelo atual de aumentos acima da inflação conforme vc constatou é insustentável e deve haver alguma mudança nos próximos 10-15 anos.

    • sempresabado

      Oi Vagabundo!
      Até que suas contas estão melhores que a minha!
      Com um custo de 6mil por mês vc iria precisar de R$1,8milhões (usando a regra dos 4%). É que as minhas contas explodiram supondo esse crescimento 10 pontos percentuais acima da inflação. Por isso minha conclusão é que colocar todos os riscos na conta leva a um problema sem solução!
      Abs

      • Vagabundo

        Aí está uma limitação da regra dos 4%. É difícil modelar diferentes niveis de despesas de acordo com as fases da vida. Agora vc gasta menos, e quando está mais velho gasta mais. Aos 90 anos projeto gastar uns 16 mil com saude por mes (6mil de plano de saude + 10 mil de asilo). Se vc falar que pela regra dos 4% precisaria de 4,8 milhoes está errado, porque ali já estarei perto de morrer e nao pretendo levar o dinheiro comigo :-); se for 4,8 milhoes hoje, como as despesas sao menores, ainda é muito dinheiro e certamente vai sobrar no final. Ou seja, anos e anos a mais que vc trabalha pra juntar e no fim nao vai usar. Pra vc que está pensando em puxar o gatilho já nos próximos anos recomendo esquecer essas regras genéricas e partir pra uma planilha individual ano a ano. Dá trabalho mas dá mais segurança. A minha por exemplo é essa: http://querovirarvagabundo.blogspot.com/2018/11/orcamento-pos-if.html

    • Aposente Cedo

      Vagabundo, você considerou os reajustes por faixa etária na sua conta? Parece-me que foi só a inflação… dê uma olhadinha numa tabela de reajuste por faixa etária de um plano grande, só pra ter uma base, pra não se decepcionar com as projeções no futuro.
      Abraço

  • Blog Menos do que Ganha

    Já esteve em discussão a possibilidade dos planos de saúde oferecerem opções de cobertura onde o usuário contrataria aquele que lhe parecesse mais adequado. Uma escolha parecida com escolher ficar me leito ou enfermaria.

    Ex:
    * Nº máximo de exames por ano
    * Nº máximo de consultas
    * Escolher o percentual de co-participação dos procedimentos
    * Escolher “pacotes” de procedimentos elegíveis à cobertura

    Eu acho interessantíssimo!

    Por fim, quero dizer que os comentários foram sensacionais para o debate sobre o tópico principal
    Parabéns aos envolvidos!

    • sempresabado

      Pois é, com a tecnologia avançando, muita gente trabalhando como autônomo e tendo q pagar seu próprio plano de saúde, acho que produtos desse tipo vão se tornar mais viáveis mesmo.
      Realmente os comentários aqui estão fantásticos. Sou muito grata por ter esse comunidade aqui me ajudando a pensar em formas alternativas (e muitas vezes melhores) de realizar meu sonho FIRE!
      Abs

  • Acumulador Compulsivo

    Esse realmente é um problema que, aparentemente, não tem muito pra onde correr.

    Hoje tenho plano de saúde através do meu cnpj, já acho caro e tenho 33 anos (Sra Acumuladora 35a).
    Quando paro pra pensar nisso, a cabeça vai tão longe que até me estressa.
    Eu não consigo ver outra alternativa, se não um misto do que o Aposente Cedo sugeriu nas opções 1, 2 e 5.
    Eu penso em jogar estes valores dentro do patrimônio e da geração de renda passiva, contratar um seguro para internações e acidentes/problemas mais graves, e tentar morar em um lugar com uma boa estrutura de saúde pública. Não são opções fáceis, mas acho mais sensato consumir parte do meu principal aos 60 ou 80, quando precisar, do que me desgastar de forma constante no presente com este problema.

    No mais, fui pra Suíça em Fevereiro, fiquei extremamente surpreso com a qualidade de vida. Idosos na casa dos 80, esquiando em casal, normalmente. Vivem num lugar fantástico.
    Pode parecer utopia, mas vou me esforçar pra ter esta qualidade de vida, praticando esportes, me exercitando e alimentando bem, e em alguns anos, buscar um lugar tão bom para viver.

    Ótimo texto e ótimas sugestões.

    Stark.
    http://www.acumuladorcompulsivo.com

    • sempresabado

      Exato Stark. Também não tenho intenção de deixar herança, então não veria problemas em consumir o principal pra ter mais acesso à saúde de qualidade quando eu mais precisar, no finais a vida.
      Realmente cuidar da saúde é o melhor seguro mesmo! Abs

  • Glaucia

    O que tenho percebido é o aparecimento de clínicas que por uma mensalidade baixa atendem à diversas especialidades, e a pessoa paga a coparticipação por consulta usada.
    No caso não tem a cobertura para internações, então a pessoa fica sujeita ao SUS, o que aqui no interior de SP funcionar até que ok.

    • sempresabado

      Verdade Glaucia, tb percebi o aumento dessas clínicas. Quando o valor é alta, atrai concorrência mesmo. Abs!

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