Carreira,  Elsa,  Qualidade de Vida,  Reflexões

O SUFICIENTE

Os planos para apertar o botão FIRE ano que vem estão cada vez mais concretos. A pandemia ainda pode atrapalhar esses planos, mas por ora ela tem ajudado a economizar ainda mais dinheiro e fortalecer o patrimônio.

Mas é claro que o caminho até lá não é linear. No final da semana passada recebi uma mensagem de um ex-colega, que trabalha numa das empresas mais respeitadas do meu ramo, dizendo “estamos com uma vaga para o seu perfil aqui, quer mandar o CV?”. Em 8 anos de carreira foram pouquíssimas vezes que eu neguei uma entrevista. Sempre me senti estimulada pelo novo, então era no mínimo um exercício interessante participar de processos seletivos em outras empresas. Isso com certeza contribuiu para que eu trabalhasse em 4 lugares diferentes em tão pouco tempo de carreira. A minha trajetória foi sempre pra cima, e os salários subiram muito e muito rápido com essa estratégia. E quando esse ex-colega me mandou a mensagem, eu logo pensei “mais uma chance de aumentar a renda em 40% em pouco espaço de tempo”. Para uma fiel seguidora do movimento FIRE, isso é extremamente sedutor. Quase impossível de negar.

Só que dessa vez a coisa é bem diferente. Antes, aceitar um emprego novo com salário mais alto me deixava alguns anos mais próxima da minha independência financeira. Mas agora que estou contando os meses, seria quase um esforço em vão. Gastaria uns bons meses no processo seletivo e mais alguns meses na adaptação ao emprego novo. Talvez eu já atingisse o patrimônio alvo antes mesmo de estar adaptada. E aí provavelmente sentiria que era muito cedo para sair, e ficaria pelo menos mais 1 ano no trabalho. O patrimônio ficaria mais gordinho, sem dúvidas. O ego também, de trabalhar numa empresa tão renomada. Mas eu estaria postergando meu sonho. Seria mais um ano de espera para o FIRE. E o mais importante, uma espera desnecessária. A verdade é que nos últimos anos eu já consegui gerar o patrimônio (e inflar meu ego) suficiente.

Debatendo o tema com o meu marido, ele trouxe outra perspectiva interessante sobre o suficiente. Hoje ele tem dois chefes, que ganham muito bem, mas claramente estão desestimulados depois de anos no mesmo cargo. Tocam tudo com a barriga, evitam ao máximo projetos novos porque acreditam que só vão trazer mais trabalho e o salário vai continuar igual. E essas histórias são tão comuns! E então meu marido concluiu “Seria melhor para a sociedade se eles percebessem que já fizeram o suficiente. Mas a ganância deles de ganharam mais um mês de salário alto por pouco esforço é maior!”. Se esses chefes percebessem que já tem o suficiente, e se demitissem, poderiam dar a oportunidade para entrar gente nova e estimulada. A sociedade como um todo ganharia só deles perceberem que já deu!

Decidi dizer “não, obrigada” e indicar outra pessoa para a vaga, que eu sei que aproveitaria mais a oportunidade do que eu. No final não seria justo com a empresa entrar nessa. Mas dizer esse “não” foi quase um processo terapêutico. Foi uma das raras vezes na vida que eu percebi que tinha feito o suficiente. E que alegria poder sentir isso, não?

Fiquei pesquisando sobre o “suficiente” e logo cheguei ao livro do John Bogle, considerado o pai dos fundos passivos. Fiquei pesquisando sobre a vida dele e descobri que apesar da sua empresa fazer gestão de mais de 5 trilhões de dólares, ele morreu com um patrimônio estimado de 180 milhões (!!!) de dólares. Acho que esses números falam muito mais do que palavras: ele é um cara que realmente parecia ter o suficiente e não se importou em dividir os ganhos com a sociedade. Essa é uma característica que só nos últimos dias eu reconheci como uma das mais admiráveis no ser humano. Ele escreveu um livro “A dose certa”, que eu li apenas a introdução. E ela começa assim:

“Em uma festa na mansão de um bilionário em Shelter Island, Kurt Vonnegut informa a seu amigo, Joseph Heller, que o anfitrião, administrador de fundos de hedge, ganhou mais dinheiro em um único dia do que Heller ganhou com seu famoso romance Ardil 22 desde sua publicação. Heller responde: “sim, mas tenho algo que ele nunca terá… eu tenho o suficiente”.

Ler isso foi quase como um presente para esse momento na minha vida. Recentemente fui visitar o apartamento novo de uma amiga. Além de enorme, o apartamento era recheado de artigos de luxo: obras de arte, eletrodomésticos italianos e aspiração central. Ela estava claramente empolgada em apresentar todos os detalhes do apartamento, e eu quase confundi sua empolgação com felicidade. Dias depois ela me chamou para conversar e disse que estava se sentindo muito pressionada, porque a pandemia reduziu seu salário e ela tinha acabado de investir 70% do seu patrimônio no apartamento novo. Com apenas 30% do que ela costumava ter no banco, ela se sentiu vulnerável. E no final concluiu “eu acho que eu não queria aquele sofá de couro, eu queria era viajar”. E ler esse trecho do livro do Bogle também me fez sentir quase pena dela, porque ela parece estar muito longe de ter o suficiente.

O próprio MMM (pausa válida para dizer que eu não consigo parar de admirar esse cara!) escreveu recentemente sobre “sweet spot”, que conversa muito com o conceito de suficiência. Ele sugeriu então que fizéssemos um diagnóstico sobre a nossa vida. O meu diagnóstico é que dinheiro, sucesso na carreira, família e amigos eu já tenho o suficiente. Inclusive foi legal pensar sobre a ótica da minha família (eu e meu marido) como suficiente. Mas para mim está insuficiente minha satisfação com saúde e projetos pessoais. E o que eu mais sinto que não tenho o suficiente mesmo é TEMPO.

15 Comentários

  • Érika

    Nossa, é isso mesmo, parabéns, tocou num tema central pra mim. Era essa sensação estranha que eu tinha quando ouço coisas como: “dinheiro só serve para fazer mais dinheiro”. Acho essa frase tão estúpida e mesquinha mas não sei explicar o porquê. Você conseguiu com esse texto!

    • sempresabado

      Interessante né Érika, acho que as pessoas não entendem que o dinheiro traz acima de tudo liberdade. Abs!

  • AA40

    Concordo com tudo SS, mais um grande post .
    Mas veja que ” Se esses chefes percebessem que já tem o suficiente”. Isto é uma das coisas que discordo um tanto. Uns 95% deles não tem o suficiente pois não guardam e mantém um padrão de vida igual ou maior do que eles podem sustentar.
    Seu post anterior sobre o a classe média paulistana gastando 26k por mes diz exatamente tudo sobre estes casos. Alguém fazendo aquilo, achas mesmo que vai ter o suficiente algum dia? JAMAIS!
    Abcs e foco que a reta final tá chegando. Grande abraço
    AA40

    • sempresabado

      Oi AA40!
      Pois é, talvez eles nunca tenham se preparado para ter o suficiente. Essa é a doença né? Abs

  • Viver Sem Pressa

    Oi Elsa,
    Quando não conhecemos a própria suficiência, perdemos dinheiro, tempo de vida e até mesmo a felicidade. Por não saber o que é suficiente que as pessoas compram loucamente (pra quem? pra provar o que?), fazem dívidas, e sempre querem mais e mais. Ganham 5 mil e querem mais. Ganham 10 mil e querem mais. Ganham 20 mil e continuam querendo mais. E continuam querendo, porque nunca pararam para pensar o que é suficiente. As pessoas acham que quem declara “eu já tenho o suficiente” é acomodado, sem ambição, um loser. Que ledo engano. Quem conhece a suficiência, é quem tem mais auto-conhecimento.
    Lindo post.
    Beijos.

    • sempresabado

      Exatamente Yuka! Como disse, só reconheci recentemente que sentir que tem o suficiente é uma característica admirável!
      Beijos

    • Michele

      Nossa, você disse uma coisa que eu acredito e que me incomoda muito! Eu sinto que recebo o suficiente e estou em cargo que ok, pra mim está ótimo pois se eu subir mais um degrau serão muitas responsabilidades e cobranças que sinceramente me fariam perder qualidade de vida e tempo com minha família o que hoje é prioridade pra mim, só que eu morro de medo de deixar essa afirmação escapar em uma conversa na empresa pq tenho certeza que serei rotulada de acomodada, que não sirvo pra empresa pois todos precisam ter um plano de carreira, ser competitivo e que devemos subir sempre senão não é boa profissional. Até meu marido se assustou quando perguntou se eu não estou preocupada ou perdendo o sono com o fim cada vez mais próximo da empresa (trabalho em um ramo em que as empresas são criadas para durarem um tempo finito) e eu respondi que não, que estou pensando seriamente em parar de trabalhar. Gente a vida é muito mais que um contracheque ou ter um cartão de visitas com seu nome e cargo de gerente, diretor, CEO… as vezes é tão mais prazeroso ‘não ter um cargo’ e ter a felicidade e tranquilidade de uma vida simples…

      • sempresabado

        Ótimo ponto Michele!! Eu também tenho pensando muito nisso, que realmente cargos mais altos vem com responsabilidades maiores, e nem todos querem isso. Ao invés de ser acomodada, na verdade vc está contente com o que tem. E isso deveria ser positivo! Interessante como em vários aspectos da nossa vida, parece que TEMOS que querer sempre mais. Abs

  • One

    Que lindo texto, SS! Uma bela reflexão.

    Saiba que seu presente encaixou perfeitamente com o que vinha refletindo esses dias… E já adicionei esse livro na minha lista de leitura… Aliás, já conhecia o famoso John Bogle dos textos sobre investimento, grandes lições o mesmo nos passa hein!

    Abs 😉

    • sempresabado

      Oi One! Que legal que também estava refletindo sobre isso. O livro tem audióbook tb! É bem relacionado com conceitos de investimentos, mas achei bem interessante pra vida tb. Abs!

  • Simplicidade e Harmonia

    Elsa,

    Excelente texto!

    Confundir empolgação com felicidade é um caminho muito percorrido, porém que no final trará o gosto da frustração, pois a empolgação é muita rasa e passageira diante das nossas reais necessidades de contentamento e realização.

    O exemplo que citou do apartamento de sua amiga ilustra bem o quanto a mentalidade de TER ainda parece ser mais importante do que a de SER.

    Um bom final de semana!

    • sempresabado

      Exatamente, empolgação é muito confundida com felicidade. E é engraçado como ela nos guia né? Achei curioso q minha amiga passou meses acreditando que o apartamento faria ela feliz, mas quando ele finalmente ficou pronto, ela percebeu que não chegou “lá”. Abs

  • Aposente Cedo

    Que artigo legal! Também adorei a introdução do livro do John Bogle, estou até pesquisando aqui pra ler.

    Parabéns pela coragem de dizer “não”. Essa é a base do essencialismo e, sem sabermos o que é puro excesso, jamais seremos totalmente plenos.

    Abraço

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