Elsa,  Investimentos,  Muquirana,  Renda Fixa

Os juros vão ficar para sempre em 6,5%? – Parte 1

Responder a essa pergunta não é simples. É tão difícil que nós unimos forças para escrever o primeiro post conjunto do Sempre Sábado! Vamos dividi-lo em 3 partes para ninguém desistir no meio.

Na PARTE 1 vamos falar o sobre o conceito de juros neutros;

Na PARTE 2 vamos falar sobre o nível atual da Selic;

Na PARTE 3 vamos falar para onde a Selic pode ir com e sem reforma da previdência.

Parte 1: Juros, confiança e juros neutros

Para responder a pergunta do post, precisamos recorrer aos conceitos básicos, do tipo, o que é uma taxa de juros?

Os juros são um tipo de preço. É o preço que um credor (a pessoa que faz um empréstimo para outra) cobra para abrir mão do dinheiro dela hoje e receber mais no futuro. Esse preço é determinado pelo grau de confiança de que esse dinheiro emprestado vai ser pago de volta. Se você está emprestando para alguém que confia, você cobra um preço menor, e se for para alguém que você não confia você cobra um preço maior.

Quando investimos no Tesouro Direto estamos emprestando dinheiro para o Governo Federal, que te promete devolver em uma data específica pagando juros sobre o empréstimo. Se todo mundo quer fazer esse empréstimo, o preço dele cai, ou seja, os juros ficam menores. Se ninguém confia no governo e não tem conforto em emprestar para ele, o preço sobe e o governo precisa pagar mais juros para receber esse dinheiro.

Já ouviu falar sobre a taxa Selic, certo? Ela é a taxa básica de juros. Ela é a taxa que serve de guia para várias outras taxas de mercado, principalmente para as taxas do Tesouro Direto.

Qualquer um de nós pode investir no Tesouro Selic e receber 100% da taxa Selic diariamente (é claro, sem descontar os custos e imposto de renda).

Se você topar correr o risco de emprestar dinheiro para o governo por um período mais longo, você vai cobrar um preço maior por isso. Pro governo é bom ter a garantia de que o seu dinheiro ficará com ele por mais tempo, então ele também topa pagar mais do que a Selic. É por isso que os demais títulos públicos (Tesouro prefixado e Tesouro IPCA+) oferecem juros acima da Selic.

A Selic não é determinada pelo governo, mas sim pelo Banco Central. Apesar da independência do Banco Central não ser formalizada no Brasil, no momento é uma instituição até certo ponto independente das vontades do governo.

Aí imagina que o Banco Central decide que a Selic vai ser bem baixa, tipo 2,0% ao ano. Se as pessoas acharem que tudo bem receber só isso, então elas continuam emprestando dinheiro para o governo a essa taxa, e nada muda.

Agora se elas acharem muito pouco, elas vão preferir não emprestar esse dinheiro. Pior, a maioria vai preferir arriscar e emprestar para pagadores duvidosos na tentativa de receber juros maiores. Você pode decidir finalmente fazer aquele empréstimo para o seu primo consumista, na esperança que ele te pague mais do que 2,0% ao ano de juros. Parece um bom negócio, não? Só que se todo mundo teve a mesma ideia que você, então teremos milhões de primos consumistas com dinheiro no bolso, comprando tudo que vê pela frente! A conseqüência disso é que as lojas ficam animadas com essa demanda, e sobem os preços. E o que temos? Inflação!

Agora vamos pensar o contrário. Se o Banco Central decidir por juros muito altos, digamos de 15%. Talvez as pessoas não achem que o governo é um bom pagador, e mesmo com juros de 15% não tem mais gente se animando a emprestar pro governo e assim, nada muda.

Mas pode ser que esses juros sejam atrativos o suficiente para que mais gente tope parar de emprestar dinheiro para o primo gastão e empreste tudo para o governo. Nesse caso, o primo gastão fica sem aquela ajuda extra para consumir, a demanda cai, e as lojas acabam tendo que diminuir os preços para se M desfazerem dos estoques. Aí a inflação cai.

Esse é uma forma bem simplista de explicar como os juros impactam a inflação. Mas fica claro que se o Banco Central decidir por juros muito baixos, as pessoas acabam tomando riscos que elevam a demanda acima da capacidade de oferta da economia, gerando inflação.

Agora reparou que em ambos os exemplos, nós comentamos que o Banco Central pode optar por juros que façam com que as pessoas não mudem sua atitude? Elas não decidem emprestar mais ou menos para o governo por conta desses juros. Se nada muda, a demanda não muda, os preços não mudam, e a inflação fica a mesma. Quando o Banco Central decide por juros que não mudam a atitude das pessoas, então esse é o chamado juro neutro da economia.

Ao longo da semana voltamos para postar as outras partes!

6 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.