Elsa,  Reflexões

Por que temos tanto receio em falar de dinheiro?

Foto por Yuya Hata via Unsplash

Você já deve ter passado por uma situação dessas. Você comprou um sofá novo, algum amigo vai te visitar, gosta do seu sofá e diz “desculpa te perguntar isso, mas quanto você pagou por esse sofá?”. Não é impressionante que a pessoa tenha que pedir desculpas pela pergunta? Acho curioso que vivemos em uma sociedade onde perguntar quanto a pessoa gastou ou ganha é visto como deselegância.

Somos extremamente desencorajados a falar sobre dinheiro com os nossos amigos e parentes mais próximos. Conheço casais que não sabem quanto o parceiro ganha. A melhor explicação que encontrei pra isso é o fato de que ainda associamos nosso próprio valor ao nosso salário. Se você ganha pouco, então você vale pouco.

E gastar dinheiro demais também é visto como motivo de vergonha, falta de esperteza. Então evitamos colocar nossos amigos nesse constrangimento e já nos desculpamos antes de fazer a pergunta sobre o quanto eles gastam.

Outro dia li que o grande problema é que não há uma métrica universal de finanças, o que dificulta muito as conversas sobre dinheiro porque nunca sabemos se estamos dentro ou fora do padrão, o que nos deixa inseguro para começar uma conversa do tipo. Por exemplo, se você quer saber se a sua alimentação tá te matando aos poucos, basta fazer um exame de colesterol e triglicérides em um laboratório. Mas como saber se a sua vida financeira é motivo de vergonha?

Acredito que uma boa solução seria ter finanças pessoais como parte do currículo básico de ensino. Mas esperar por uma solução dessas pode tomar tempo e muita gente já saiu da escola. A única saída é quebrar esse tabu e conversar abertamente de dinheiro com as pessoas próximas a você. Vou falar de como isso já me ajudou pessoalmente.

Saber quanto o outro gasta te ajuda a mensurar melhor o seu orçamento

Eu sempre morei na zona norte de São Paulo e estudei na zona sul. Quando eu comecei a trabalhar, também trabalhava na zona sul. Atravessava a cidade todos os dias e sofria muito com o trânsito. Quando eu chegava em casa e desabafava com meu pai ele dizia “paciência filha, morar na zona sul é caro demais e a gente não tem condição”.

Eu tinha como verdade absoluta que morar na zona sul era caro demais e eu não teria solução para o problema do transito diário (como eu acho que a maioria das pessoas ainda acredita). Até que eu comecei a namorar meu atual marido, que tinha acabado de comprar o próprio apartamento na zona sul. Ele comprou um apartamento antigo e pequeno, fez uma reforma bacana e conseguiu morar na zona sul por um valor bem factível. Foi só quando ele me contou sobre o quanto gastou no apartamento e na reforma que eu consegui me desfazer dessa crença de que morar na zona sul era caro! Comprar um apartamento novo e grande pode ser um preço impeditivo, mas comprar um velho, pequeno e reformar pode ser bem viável! Saber disso e os valores que ele gastou foi fundamental para que eu me mobilizasse para comprar o meu apartamento e me livrar do inferno do trânsito diário. Além disso, saber os valores dele me poupou muito tempo na pesquisa dos apartamentos porque eu já sabia um preço possível para a região.

Recentemente uma amiga se mudou para um apartamento em uma região um pouco menos valorizada mas que ainda é próxima do meu trabalho. E conversamos abertamente sobre o quanto ela estava gastando de aluguel e condomínio nessa região. Essa informação também foi muito valiosa pra mim! Como o valor é bem abaixo de um aluguel na região que eu moro, isso me ajudou a ter a segurança de que, se um dia eu precisar, eu posso morar nessa região e economizar um bom dinheiro.

Saber quanto o outro ganha te ajuda a negociar um salário melhor

Um dia estava conversando com a minha ex-chefe e tivemos uma conversa sincera sobre salário. Eu estava desanimada com o meu salário e ela concordava que eu deveria pedir por mais. Ela obviamente sabia o quanto eu ganhava, mas eu não sabia nada sobre o salário dela. Para me incentivar, ela então resolveu me contar quanto ganhava na minha idade e com a minha experiência.

Quando ela me falou o salário, que era consideravelmente maior do que eu ganhava eu tinha duas opções (i) me sentir desvalorizada e ficar choramingando que eu não tive a mesma sorte que ela ou (ii) negociar um salário maior pra mim, dado que agora eu sabia qual era um salário possível para o meu cargo e nível de experiência.

Primeiramente tentei negociar um salário maior no trabalho que eu estava, o que já ajudou bastante. Consegui um aumento de 50% no meu bônus. Como já estava pensando em mudar de emprego, isso era relevante porque eu partiria de uma base maior de negociação com meu novo empregador. E quando surgiu uma nova oportunidade, pedi o salário que a minha chefe ganhava e consegui. Agora pelo menos sei que estou sendo remunerada de uma forma mais compatível com o mercado, o que ajuda muito na minha auto estima e no meu estímulo no trabalho.

Mas lembre-se: a sua segurança deve vir em primeiro lugar

Talvez pareça hipocrisia eu falar sobre tabus com dinheiro e não falar aqui quanto eu gastei no meu apartamento e quanto eu ganho.

Mas aqui é um local público e não tenho controle de quem vai acessar essa informação. Infelizmente algumas pessoas usam informações a seu respeito para te prejudicar. Por isso prefiro manter os números em segredo!

Isso vale para demais situações. A sua segurança deve vir em primeiro lugar! Encorajo uma conversa franca e aberta com amigos que você confia, mas desencorajo postar seu salário no Facebook! Rs

E você? Já teve uma conversa sincera com amigos? Como foi sua experiência?

2 Comentários

  • Executivo Investidor

    Ola Elsa! Acredito que o tabu “dinheiro” no Brasil está relacionado a primordialmente dois fatores: segurança (se ganha bem certamente será alvo de assalto ou sequestro relâmpago), e inveja. Infelizmente muitas pessoas não veem o sucesso dos outros como mérito ou com felicidade, mas sim com inveja (“como ele ganha isso e eu não?”, “nossa que casona/carrão deve ser traficante ou político”). Veja não estou generalizando mas isso é muito mais comum do que deveria ser!

    Abraço.
    Executivo Investidor
    http://www.executivoinvestidor.com

    • sempresabado

      Concordo com o problema de segurança, mas ainda assim acho que as pessoas não falam nem com aquelas que confiam!
      A inveja realmente atrapalha a conversa, mas acho que o medo de parecer pobre também fala alto nessas horas, rs
      Uma pena! Pq todo mundo perde com essa assimetria de informação né?

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