Elsa,  Reflexões

Sobre trabalhar com paixão

Acho que a maioria que acompanha os blogs de finanças pessoais já ouviu falar do episódio da Suze Orman no podcast da Paula Pant (caso não ouviu, vale ouvir aqui). O episódio chamou a atenção porque a Suze é considerada a matriarca das finanças pessoais nos EUA mas quando questionada sobre o que ela achava da comunidade FIRE ela respondeu “I hate it, I hate it, I hate it”.

Eu não conhecia a Suze, mas conforme eu fui ouvindo o episódio vi que ela tinha algumas ideias que faziam sentido, como gastar menos do que se ganha, se proteger de eventuais riscos para você e sua família e etc. Então me surpreendeu que ela não curtisse o movimento FIRE. 

Mas ouvido a resposta dela sobre o porquê ela odeia o movimento ficou claro que (i) ela acredita que as pessoas precisam comprar seguro se proteger e (ii) ela acredita que o objetivo da pessoa não deve ser se aposentar o quanto antes mas sim achar algum trabalho que te faça feliz. E bem, é sobre esse segundo ponto que eu quero falar aqui.

É possível trabalhar com paixão?

Provavelmente você já se apaixonou alguma vez na vida (ou com certeza ainda vai se apaixonar). Então sabe que a paixão é algo extremamente curto. Quando você acabou de conhecer alguém, é fácil se apaixonar porque é possível idealizar ao máximo essa pessoa, dado que nós seres humanos somos ótimos para esconder nossos defeitos (principalmente quando também queremos conquistar a pessoa). Mas também somos péssimos para esconder nossos defeitos no longo prazo. Fatalmente vai ter um dia em que a pessoa vai acordar com a pá virada e você vai conhecer aquele lado não tão charmoso dela. Essas coisinhas, infelizmente, vão minando a paixão, porque você já não consegue idealizá-la tão bem depois que conhece alguns defeitos. Mas isso não necessariamente é ruim, porque depois que a paixão acaba e você percebe que gosta dela mesmo com os defeitos, é porque agora começa a fase do amor.

Por isso que eu não acredito que é possível trabalhar com paixão. Paixão é fogo de palha, tem vida curta. Se você se diz apaixonado pelo trabalho é porque ainda idealiza ele e provavelmente ainda não conhece todos os seus defeitos. Achar que você vai passar dos 20 aos 60 anos apaixonado pelo trabalho é muita ilusão. Fica pulando de galho em galho, para sempre trabalhar com paixão, é bem arriscado. Então desiste, no máximo você vai conseguir um trabalho que você ama: aquele que você gosta, mesmo reconhecendo os defeitos dele.  

Eu amo meu trabalho, não quero me aposentar

Algo que eu acho muito curioso é que sempre que digo que quero me aposentar cedo para algumas pessoas e conto os esforços que estou fazendo na minha vida para alcançar a independência financeira, a maioria das pessoas ou diz que eu levo uma vida de privação (o que está longe de ser verdade) ou que eu devo odiar meu trabalho. São raros os casos que me parabenizam e pendem dicas para fazer o mesmo.

“Ah Elsa, eu amo meu trabalho, não quero me aposentar”. Infelizmente, da mesma forma que a paixão acaba, o amor também acaba. É só perguntar para pessoas que foram casadas por anos mas que acabaram se separando. Eu não duvido que você ame o seu trabalho, mas eu duvido que você possa amá-lo por muito tempo. 

Vou te contar a minha própria experiência. Recém saída do mestrado eu arranjei um emprego que achava que era dos sonhos. Iam me pagar  por algo que eu fiz a faculdade inteira: estudar. Mas era uma empresa grande em meio a uma mudança de vice-presidência. Em poucos meses, mudaram também os diretores, depois os gerentes e assim vai. Foi tanta mudança que obviamente o escopo do meu trabalho mudou. De repente, eu era paga para garantir que os processos ficassem de pé. O trabalho era tão operacional que não havia nenhum ganho de desenvolvimento envolvido. 

Fui então para uma empresa pequena. Na minha inocência, a empresa pequena não teria problemas com troca de vice-presidente, diretores e etc, porque esses cargos eram representados por fundadores da empresa. Eu não podia estar mais enganada. Eu adorava a cultura da empresa, as pessoas com quem eu tinha que trabalhar no dia a dia. Mas também não durou muito e eu descobrir que mesmo os fundadores perdem a “paixão” pelo negócio e saem. Outros entraram e a cultura mudou. E de repente, mais uma vez, eu era paga para trabalhar de uma forma que era muito incômoda para mim. 

Voltei para uma empresa grande e nem vou continuar essa história porque já deu para entender. Eu gosto do meu trabalho atual, estou alinhada com a cultura do local e sinto que estou me desenvolvendo profissionalmente. Mas já não sou tão inocente a ponto de achar que vai ficar assim para sempre. Aliás sabe o que foi anunciado na semana passada? Mudança de vice-presidência.

Não existe fórmula mágica para garantir que o seu emprego ficará do jeito que você gosta para sempre. Talvez você dê sorte. Talvez você seja empreendedor e tenha mais controle sobre o rumo do seu trabalho. Mas a maioria das pessoas que me diz “eu amo meu emprego, não quero me aposentar” são trabalhadores de carteira assinada em alguma empresa. O que eu penso sobre isso é que você ama seu emprego agora, mas não há garantia de que continuará amando nos próximos 10 anos.

E se o seu chefe mudar? E se a sua função mudar? E se a cultura da empresa mudar? Talvez você prefira sair. E nesse caso, seria ótimo que você tivesse segurança financeira para tomar essa decisão!

FIRE e amar o trabalho são conceitos contraditórios? 

Em homenagem a Suze Orman “não é, não é, não é”. E deixe-me explicar porque.

Se você tem independência financeira pode ser dar ao luxo de trabalhar com o que gosta, independente do quanto vai receber por isso. E se você trabalha com o que gosta, provavelmente vai querer ter independência financeira para garantir que você continue trabalhando com o que gosta em outro lugar caso as coisas mudem. Ou seja, são conceitos muito ligados!

Além disso, não sei se você reparou, mas a felicidade está na moda entre os pesquisadores. Agora que a população (pelo menos dos países minimamente desenvolvidos) não morre mais de febre nem de virose, todo mundo quer entender porque ainda não somos felizes e como podemos encontrar a tal da felicidade. O assunto é bem extenso e bem interessante. Mas pelo pouco que sei, já sei que (i) consumo em excesso não traz alegria e (ii) ajudar aos outros traz muita alegria.

Imagino que um trabalho que consiga trazer uma alegria genuína deve ter como propósito servir ao outro. Mas raros são os casos em que a ajuda genuína ao outro está em primeiro lugar nos empregos modernos. Sei que isso pode ser bem polêmico, mas pense bem na maioria dos empregos que você conhece. Além disso, existem inúmeros casos de trabalhos que trazem um benefício enorme à sociedade, mas que são mal remunerados. Exemplo clássico aqui é do professor.

Eu já me imaginei fazendo diversas outras coisas que me trariam mais alegria, a maioria delas eu não sei nem se seriam remuneradas! Eu poderia arriscar, largar meu emprego e ir em busca dessas atividades. Mas eu nem sei ao certo o que realmente me traria alegria no longo prazo e o risco é grande de que eu precise voltar a trabalhar por dinheiro. Prefiro o outro caminho: atingir minha independência financeira e depois ter a liberdade para buscar o trabalho que me traria amor e alegria. 

E você, esta trabalhando com algo que ama?

16 Comentários

  • AA40

    Muito boa reflexão.
    Agora imagina além de tudo ainda vc não estar se desenvolvendo profissionalmente e não conseguir mudar de empresa (por motivos legais). Pois é, isso que acontece comigo.
    FIRE acaba sendo a única saída lógica a perseguir.
    Abcs e obrigado por nos lembrar mais uma vez por que estamos fazendo isso.

  • ABM

    Quando o seu trabalho está sob o guada-chuva institucional o seu poder de agência é bem pequeno. Nao importa a posicao hierárquica, pois o que eu já vi de CEO comendo na mão de board. Vc esta sujeito a ter o escopo do seu trabalho completamente alterado sem prévio aviso, ou o que vc se dedicou por muitos meses agora é irrelevante. Eu percebi que eu poderia ser muito fiel ao meu trabalho, mas ele nao seria a mim. Acho que vivemos numa época em que a necessidade de afirmação pelo trabalho ficou meio desproporcional a todos os outros aspectos da vida. As pessoas que se tornaram inspiração para mim são aquelas que construiram um mundo de sentido e de relações fora da sua carreira. Vc pode trabalhar 100 horas por semana, a sua contribuição é uma gota no oceano. Vale a pena nao perder de vista o que de fato importa nesta vida.

    • Frugalidade Hacker

      Excelente, ABM. Concordo plenamente.

      “a necessidade de afirmação pelo trabalho ficou meio desproporcional a todos os outros aspectos da vida”: isso é muito nocivo, e ficou explícito pra mim quando morei nos EUA. Lá, é uma cultura absurda de que não podemos ter “frescura” pra viajar a trabalho, trabalhar 3 meses numa cidade, 3 meses noutra, sem nunca criar vínculos com nenhuma comunidade, e, ao mesmo tempo, enfraquecendo vínculos com a própria família.

      Aprendi a admirar mais as pessoas que trabalham pra viver, e não vivem pra trabalhar.

    • sempresabado

      Ótimo comentário ABM!
      Realmente, a fidelidade do emprego a nos é bem questionável! Acho que quem se sente protegido em qualquer emprego está vivendo uma ilusão.
      Lindo isso que você falou sobre inspiração! Mesmo tendo uma rotina puxada por conta do trabalho, sempre separo um tempo pra fazer coisas pessoais.

  • executivoinvestidor

    Ótima reflexão! Sempre fui apaixonado pelo meu trabalho no Brasil, porém com mudanças constantes de empresas (sempre para ganhar mais). Na última fiquei quase 10 anos e sai feliz e satisfeito porém a ideia de passar 30-40 anos trabalhando para os outros nunca esteve nos meus planos. O que me motivava era claro a remuneração, o tipo de trabalho (que eu gosto muito) mas mais ainda a expectativa de que o “fim” estava próximo (leia-se “Independência Financeira”).
    Não pretendo ficar a toa mas ter liberdade é muito bom! Talvez esse seja o grande equívoco de quem fala mal da busca do FIRE. Existe o pré-conceito que FIRE significa ficar a toa. (Claro que um logo período de férias vai ser uma realidade! Rsrs..)

    Abraço!
    Executivo Investidor
    http://www.executivoinvestidor.com

    • sempresabado

      Pois é, acho que quase ninguém quer ficar à toa mesmo. Temos uma necessidade de propósito intrínseca!
      Mas isso não é desculpa pra ficar preso em um trabalho que não gosta né?
      Interessante que mesmo apaixonado pelo trabalho vc tb está buscando o “fim”, rs. No fundo, acho q não há a ilusão de que vai ser sempre assim né?

  • Vanessa

    O problema não é só amar o que faz, o problema, no meu caso, por exemplo, amo o que faço, mesmo com as constantes mudanças de direção, o problema é não ser dona do meu tempo, estar 14h-15h por dia na empresa é o que me faz buscar FIRE, para poder trabalhar 6h por dia e ter o resto do tempo para fazer outras coisas além de só trabalhar.

  • Frugalidade Hacker

    Belo texto, Elsa! Acho que o “amo meu trabalho” é, muitas vezes, uma muleta pra não mudar de vida. Falo pelo que percebo do meu próprio pai, que já tem idade pra se aposentar (professor de universidade pública, com salário quase integral!), mas não o faz porque “ama o trabalho”, mesmo morando a mais de 1h da universidade. Mas o que eu e minhas irmãs percebemos é que ele realmente não tem outra ocupação, sabe?, não pensa em como usar o tempo livre pra tornar a vida mais divertida.

    Acho que isso acontece com bastante frequência. São diversas as muletas psicológicas pra justificar o medo do desconhecido, o medo de ir contra o normal: “amo o trabalho”, “se acontecer uma catástrofe? [vide Suze Orman]”, “é só encontrar o trabalho perfeito”.

    Abraços

    • sempresabado

      Nossos pais são muito parecidos! Só que o meu foi obrigado a se aposentar… ele tem independência financeira e podia estar curtindo a vida! Mas não se preparou pra aposentadoria e se sente inútil agora. É triste de ver!

      Mas sim, às vezes é mais fácil criticar e dizer q eu tinha q achar o trabalho perfeito do que aceitar que tb deveria a mesma meta!

  • Victor

    Me amarro nesse tópico Elsa!! rs

    só pra acrescentar, caso vc ainda não tenha lido, os comentários bem legais do MMM sobre o episódio da Suze e tal…. https://www.mrmoneymustache.com/2018/10/05/the-fire-movement/

    Sobre essa questão de ter paixao pelo trabalho, etc um livro que fala bastante coisa nessa linha (muito foda! recomendo!!) é o “So good they cant’ ignore you” do Cal Newport (ps. tb tenho o “Deep Work” dele e tb é sensacional) onde um dos pontos mais interessantes é ele explicando como o “follow your passion” não é o melhor conselho a se seguir e tal… tem varios videos dele falando sobre isso aqui vai um deles …https://www.youtube.com/watch?v=IIMu1PGbG-0

    abraço
    Victor

    • sempresabado

      Muito legal Victor! Já tinha lido o post do MMM, como sempre, ele arrasou!

      Não conhecia esse livro, vou atrás. E obrigada pelas dicas do YouTube! Vou assistir tb!

      Valeu!

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