Elsa,  Gastos

Um ano sem compras

five people standing against wall
Foto por rawpixel.com em Pexels.com

Em 2016 eu me propus a ficar um ano sem compras. Durante um ano, eu não poderia trazer nenhum objeto novo para a minha casa, além de alimentos e produtos de higiene e limpeza. E foi uma experiência incrível!

A minha motivação para começar esse desafio veio de duas fontes. A primeira era o objetivo de diminuir meus gastos e conseguir economizar uma parcela maior do meu orçamento. Quem sabe eu não aprendia a consumir menos para todo o sempre e ficaria mais próxima da minha aposentadoria?

A segunda motivação era um pouco mais idealista. Eu estava convencida de que comprar coisas não me trazia felicidade, mas na prática ainda não resistia a comprar uma peça de roupa para me sentir mais bonita (o que durava apenas no primeiro dia que eu usava essa roupa). Era mais forte do que eu! Achei que um desafio desses cortaria o mal pela raiz. Se eu conseguisse manter o mesmo nível de felicidade sem comprar nada, então era a prova de que eu não precisava comprar nada para ser feliz.

Como tudo nessa vida, meu desafio tinha algumas regras. Quando eu comentei sobre a minha ideia de ficar 1 ano sem compras, uma amiga minha disse que eu precisava de uma cláusula de escape para algum incidente. “Vai que o salto do seu sapato quebra a caminho de uma reunião importante?”, ela me disse. Dificilmente essa situação aconteceria comigo porque eu não uso salto, mas entendi o conselho.

Foi aí que decidi que eu precisava fazer um fundo financeiro para momentos inesperados em que a única solução possível fosse comprar alguma coisa. Minha ideia foi alimentar esse fundo vendendo coisas que eu não usava ou não precisava mais. No final, o desafio de vender as coisas que eu tinha foi muito maior do que o desafio de não comprar nada.

Eu estava com tanto medo de precisar comprar alguma coisa, que meu foco inicial era vender tudo que eu podia. Fiz uma limpa no meu gurada-roupa e vendi algumas pessoas no site do Enjoei ou no Brechó. Vendi celulares antigos, bolsas, até maquiagem e perfume que não usava mais no Mercado Livre. Encontrei um lugar que comprava peças de ouro e me desfiz de um monte de brinquinhos, pingentes, colarzinhos que a gente vai ganhando ao longo da vida e nunca usa. Quase todo dia eu buscava algo em casa que podia vender e em pouco tempo eu já tinha arrecadado mais de R$3 mil reais para o meu fundo.

Essa quantia era o suficiente para comprar muitas coisas, que eu precisasse ou não, afinal tava dentro das regras do desafio. Mas mesmo assim me contive. A única compra que fiz foi um vestido para um casamento de uma amiga (mulheres e essa obsessão por não repetir vestidos em casamentos), que comprei em um brechó e gastei R$30,00 (sim, isso existe, e você deveria fazer mais compras neles!).

O que me fez resistir a gastar esse R$3 mil, foi a dificuldade que eu tive em me livrar das minhas coisas antigas. O processo de venda de uma peça de roupa pelo site do enjoei, por exemplo, é bem exaustivo. Primeiro você tem que tirar fotos boas do produto, depois anuncia e espera a aprovação do site. Com o anúncio aprovado, você fica esperando alguma oferta, precisa responder a perguntas dos possíveis compradores e negociar o valor. Depois de vendido, você precisa embalar o produto, escrever uma cartinha para pessoa que está recebendo, e ia até os Correios enviar. Depois de enviado você ainda espera alguns dias para saber se chegou ok, e só depois de mais uns dias você recebe o valor pela venda. É realmente um processo longo!

Depois de um ano sem compras, eu estava mais rica e tinha conseguido gastar bem menos. Além disso, por conta do meu desapego com itens antigos, a minha vida estava muito mais simples. Escolher roupa no guarda-roupa era muito mais fácil porque eu tinha bem menos peças. Minha casa estava com menos objetos e muito mais agradável. Na cozinha, era mais fácil achar os utensílios que eu realmente precisava. Eu finalmente entendi o conceito da Marie Kondo de ter poucos objetos e só aqueles que trazem alegria.

Mesmo hoje quando me vejo diante de uma possível compra eu avalio o trabalho que terei para me livrar daquele objeto quando ele não for mais útil pra mim (e não me trazer mais alegria). E isso mudou a minha perspectiva sobre as compras, porque se eu percebo que em pouco tempo aquele objeto se tornará inútil, então não compensa o gasto de dinheiro na compra e de energia na venda! E bem, dado o número de compras que eu ando desistindo, também percebi que boa parte dos nossos impulsos consumistas são por coisas inúteis.

No final, ficou um enorme carinho por esse desafio e uma vontade de repeti-lo em breve. Tenho certeza que a repetição seria um desafio ainda mais incrível!

Elsa

15 Comentários

  • Frugalidade Hacker

    Oi, Elsa. Belo texto.

    Muitas vezes nossos privilégios (bom emprego, bom salário, plano de saúde privado etc) nos deixam mais fracos, relapsos e pobres. Por que tanta gente gasta dezenas de milhares de R$ por ano em coisas desnecessárias? Porque elas podem!, porque o salário permite. Mas a gente sabe que elas estão apenas acumulando passivos, e tornando-se mais pobres.

    Por isso que sou superfã dessas dificuldades voluntárias: não fazer compras no ano, poupar pelo menos 50% da renda antes de pagar as contas, consertar a bicicleta por conta própria etc. Isso nos força a desenvolver novos hábitos (saudáveis).

    Abraço

    • sempresabado

      Gostei desse termos: dificuldades voluntárias! Acho q a chave é essa mesmo, sair do comodismo e tomar ações para o objetivo q deseja.
      Já estou bolando minhas metas pra 2019, mais dificuldades voluntárias por aí! Rs

  • Fernando do Sou Poupador

    Oi Elsa, prazer! Somos lá do blog Sou Poupador!

    Gostamos muito da sua história e ela se identifica muito com a filosofia que pregamos do desapego e vida simples. Fica aqui o convite para conhecer o SP!

    Parabéns por conseguir se desapegar das coisas materiais!
    Um forte abraço, Fernando.

  • executivoinvestidor

    Que experiência! Imagino o desafio que deve ter sido! Eu me considero super controlado com meus gastos pessoais mas principalmente no início da carreira Executiva tive que tomar muito cuidado para não cair no conto do “todo mundo tem” (roupas de marcas, relógios caros etc).
    Ainda assim, quando vim para o Canada me livrei de muito excesso vendendo roupas e objetos sem muito uso.
    Abraço!

    Executivo Investidor
    http://www.executivoinvestidor.com

  • Simplicidade e Harmonia

    Elsa,

    Gostaria de destacar uma frase do seu post: ” Eu estava convencida de que comprar coisas não me trazia felicidade.”
    Em um mundo tão consumista, no qual desde cedo somos ensinados que bens materiais trazem felicidade, é libertadora a consciência de que tudo isso é uma grande mentira.

    Além disso, como você disse no final, gostaria de propor uma reflexão: quanto tempo, energia e dinheiro gastamos tentando suprir nossas necessidades mentais com produtos que não as satisfarão? Seria mais ou menos como estar com sede e beber refrigerante. Vai resolver o problema? Não. Além disso, trará muitos problemas distanciará ainda mais a pessoa da saúde.

    Parabéns por ter chegado nesse ponto em relação ao consumo! É uma boa reflexão para todos sobre o consumo por impulso e sem reflexão, ainda mais nessa época em que os exageros são constantes.

    Boa semana,
    Simplicidade e Harmonia

    • sempresabado

      Você tem razão, é libertador ter essa consciência!

      E realmente o tempo e energia gasto com as compras, são tão relevantes quanto o dinheiro gasto. Acho que tem muito a ver com o post da Muquirana de que para ser rico você precisa começar a ser feliz!

      Adoro seu blog também! Boa semana!

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