Elsa,  Reflexões

Um patinho feio no trabalho

Nas semanas entre o Natal e Ano Novo, e nas primeiras semanas de janeiro, aproveitei que o trabalho estava devagar pra ler um livro que tinha me chamado atenção “Mulheres que correm com os lobos”. E cara leitoras (leitores talvez consigam usufruir desse livro também) guardem essa dica como um presente da Elsa: se em algum momento vocês estiverem buscando maior compreensão, estiverem mais introspectivas, pensado se vão/voltam pra terapia, então aproveitem o momento pra ler esse livro. É uma das coisas mais lindas e verdadeiras que eu já li. Mas precisa estar preparada porque a leitura não é fácil. E se não estiver te despertando muitos questionamentos, talvez não seja o momento ideal.

A autora do livro é uma psicanalista que, através de contos antigos, busca destrinchar a psique feminina. Os capítulos são todos incríveis, mas teve um que eu acho que cabe bem na minha busca pela IF. O capítulo é sobre o conto do Patinho Feio.

Acho que todos conhecem a história do cisne que nasceu num ninho de patos, e que passou a vida frustrado sem conseguir ser pato por não saber que na verdade era cisne. Existem diversas pessoas que não se encontram na família, no amor, na própria sexualidade. Para mim, ler esse capítulo deixou claro que eu sou uma pessoa que ainda não me encontrei no trabalho.

Já falei sobre paixão pelo trabalho e quanto acho isso uma baboseira. Mas talvez tenha que reconhecer que eu seja uma cética por realmente não ter experienciado isso.

Uma pergunta recorrente que eu ouço quando digo que quero me aposentar é “mas porque você não gosta do trabalho?”. Já tentei responder de diversas formas, mas acho que a resposta que é mais fidedigna no momento é “porque ele não desperta meu interesse 12h por dia, todos os dias da semana”. Eu até tenho interesse pela minha área, mas estou longe de achar que fazer só isso, ler sobre isso, estudar sobre isso, todo-santo-dia, é demais para mim.

E isso é frustrante porque conheço pessoas no trabalho que são extremamente dedicadas. Eu acho graça e penso “coitadas, não sabem que existe vida lá fora”. Mas ler esse capítulo abriu uma visão nova para mim: talvez EU seja um cisne num ninho de patos. Talvez existam patos que se encaixam perfeitamente ali. Mas eu sou um cisne.

O curioso é que eu ainda não estou preparada pra “desistir” de ser pato. Eu cresci achando que era pato, estudei pra ser pato. Vejo que ser pato desperta orgulho na minha família (e ultimamente pude presenciar amigos orgulhosos por terem uma amiga pato, rs).

Talvez eu até tenha achado que estava no ninho errado, e como o cisne no conto, fui procurar “abrigo” em outros lugares. Talvez por isso eu tenha mudado de emprego tantas vezes.

Talvez agora eu esteja como o cisne no meio do gelo, isolada. Não tenho vontade de almoçar com os colegas, de ir aos HH no final do trabalho e de tentar novas amizades. Talvez me resgatem de lá. Talvez ainda não seja resgatada pelo grupo de cisnes.

Será que a comunidade FIRE é meu grupo de Cisnes? Não sei. Mas acho que o tempo livre durante a independência financeira me ajudará na busca pelo meu grupo, pelo meu trabalho “cisne”. O mais curioso é que eu não faço ideia do que seja isso, e isso é amedrontador. Talvez, como o cisne na história, esse trabalho já até tenha cruzado a minha vida e eu não reconheci. Afinal, to tão empenhado em ser pato que talvez não tenha reconhecido meu próprio reflexo.

Se essa reflexão parece ter um pingo de tristeza, ela também me traz alívio. De fato estou no lugar errado. De fato preciso me desvencilhar e procurar um novo estilo de vida. De fato a IF vai ser uma ajuda imensa nessa busca. Que bom que está chegando. E eu mal posso esperar para encontrar meu grupo de cisne!

14 Comentários

  • Michelle Lyma

    Caramba, seu post falou diretamente comigo. Sinto-me da mesma forma. Tantas coisas me interessam, mas no momento em que atingir a IF não faço idéia de em qual “grupo” vou me encaixar, já que com certeza não é o “grupo” da minha atual profissão. Com certeza lerei esse livro.

    • sempresabado

      Oi Michelle! É sempre uma alegria poder “falar” diretamente com as pessoas através dos nossos posts. Leia o livro sim, ele é muito poderoso!

  • AA40

    Exatamente como me sinto as vezes. Matou a charada SS. Acredito que muitos FIREEs estejam na mesma condição de pensar que nossa vida é muito mais do que nosso trabalho . Abcs

  • Bancário em busca do FIRE

    Belíssima reflexão. Obrigado pela indicação do livro.

    Sobre o tema, já me peguei refletindo sobre isso. É a famosa pergunta: o que vc faria se ganhasse na mega sena/ficasse milionário. Eu seria professor (esse seria o meu lado Cisne). Meu lado pato é ser bancário…

    A IF permitira responder a pergunta.

    • sempresabado

      Sabe que eu também penso que ser professora pode ser meu lado cisne? Dei aulas durante a faculdade e mestrado e me sentia muito bem fazendo isso! Com certeza é uma opção! Abs!

  • Simplicidade e Harmonia

    Elsa,

    Seu texto ficou perfeito. Me identifiquei muito com suas palavras, pois muitas vezes me sinto exatamente assim: um cisne em meio aos patos.

    Aprendemos desde cedo que a vida segue por um determinado caminho e que os papéis já foram determinados. E quando você insiste em ser um cisne e seguir sua essência, seus valores e objetivos em meio aos patos, pode preparar-se para as críticas. Não acho que seja proposital, mas eles também aprenderam assim.

    Talvez a maioria consiga aceitar e passar a vida dessa forma. Sem grandes questionamentos, seguem o script determinado. Mas nem todos são assim – felizmente, pois muitas das criações mais disruptivas da humanidade vieram exatamente dessas pessoas.

    “De fato estou no lugar errado. De fato preciso me desvencilhar e procurar um novo estilo de vida.”
    Parabéns por estar perto da IF! Assim logo você poderá encontrar o seu grupo de cisnes. 🙂

    Apesar de estamos em janeiro, já vou deixar seu texto selecionado para a minha lista de melhores posts de 2020.

    Boa semana!

    • sempresabado

      Muito querido seu comentário! Fico super feliz quando consigo tocar as pessoas com os textos! Eu estou aprendendo aos poucos que as pessoas são diferentes, e que o que cabe pra um, pode não caber ao outro. Faz parte! A vida é cheia de cores! Abs

  • GERALDINE F

    Elsa, que clareza incrível!
    Parabéns pela percepção e pelo texto bem escrito!
    Me encaixei perfeitamente na sua descrição…Também estou perdida e preciso achar meu bando de cisnes, continuo buscando sem perder as esperanças!
    Desejo sucesso na sua busca!!!!

  • Pinguim Investidor

    Olá Elsa!

    Ótimo post, ser o patinho feio é uma daquelas coisas que eu lá dentro já sabia que acontecia comigo, só não tinha um nome pra dar pro fenômeno hehe. Almoços na mesa, com comida feita e trazida? Check. Não beber em Happy Hours, e utilizar o tempo para desenvolvimento pessoal? Check again. A lista de semelhanças vai longe.

    Eu particularmente já fiz as pazes com o fato que pra muitas ocasiões eu serei “patinho feio” pra sempre, e aprendi a ver isso não de forma ruim; vejo que estou me desenvolvendo e que isso é um retorno melhor do que tentar ser “normal” e acabar ser medíocre. Um pouco de estoicismo também ajuda bastante.

    Abraços e seguimos em frente!

    Pinguim Investidor
    https://pinguiminvestidor.com

    • Simplicidade e Harmonia

      Pinguim Investidor,

      Desculpa eu comentar aqui, mas não estou conseguindo entrar em contato com você. Não sei o acontece com a minha conta no WP, mas os meus comentários no seu blog estão indo parar na pasta sp am…

    • sempresabado

      Oi Pinguim! Estou me familiarizando com o estoicismo aos poucos, mas o pouco que li devo dizer que concordo. O nosso desenvolvimento não é linear, acho que as pedras no caminho são inevitáveis. Mas é bom ter um caminho, rs, pelo menos!

  • Sniper Investidor

    Perfeita definição. No meu horário de almoço já subo com fone, almoço em silêncio e tem uns 3 anos que nunca vou aos HH. Não vejo a hora de chegar na na IF. Basicamente só estou lá pelo dinheiro. Aos poucos vou me livrando das algemas de ouro e fugindo da corrida dos ratos.

    Sniper

    Um Beijo Grande

    • sempresabado

      Oi Sniper! Pois é, antes eu tinha necessidade de fazer amizades porque pensava “vou ficar um bom tempo por aqui, melhor fazer amigos”. Mas agora falta pouco, e sinceramente, me sinto mais do lado de lá do que de cá, rs, já não me sinto tão conectada com a rotina de trabalho, mesmo trabalhando. Faz parte! Boa sorte pra vc! Beijo

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