Elsa,  Reflexões

Um sonho de liberdade

Cena do filme “Um sonho de liberdade”

Alerta de spoiler: esse post contém diversos detalhes do filme inclusive sobre o final. Então se você não assistiu, vai lá, assiste no Netflix e depois volta aqui pra ler e comentar!

Ontem eu finalmente assisti ao filme “Um Sonho de Liberdade”. Já li vários blogueiros em busca de FIRE citarem esse filme fazendo uma analogia com a trajetória de uma pessoa em busca da aposentadoria. O filme é realmente inspirador e me fez querer relatar as semelhanças que eu enxergo também! É claro que devemos guardar as devidas proporções, afinal de contas na prisão não tem final de semana ou férias, e o ambiente é muito mais violento fisicamente e psicologicamente. Mas em proporções menores, lembra muito a rotina de trabalho!

A primeira semelhança é com a situação imposta. No filme, o Andy é preso injustamente por matar sua esposa. A narrativa para prendê-lo é tão boa que não resta muita saída para ele a não ser aceitar a sentença de prisão perpétua. Bom, se você não nasceu herdeiro, não te resta muita saída a não ser trabalhar para pagar as suas contas. Para algumas pessoas, trabalhar é uma questão de escolhas, para a maioria é uma questão de necessidade.

O filme mostra então como a primeira noite é a pior de todas. Quando você realmente se da conta de que perdeu a sua liberdade e essa será sua vida daqui a diante. Lembro exatamente do meu primeiro dia de trabalho, quando percebi que aquela seria minha rotina para sempre pelos próximos 40 anos. No final do dia, bateu um desespero e uma vontade de dizer pra todo mundo que eu não pertencia aquele lugar, que devia ter algum engano.

Logo o Andy começa a perceber que ficar quieto no canto dele não é uma boa estratégia, e que ele precisa se relacionar com os outros, inclusive com quem não gosta mas tem poder dentro da prisão. E é impressionante como na maioria dos empregos não basta apenas entregar o seu trabalho. Você precisa se relacionar, e algumas vezes com pessoas que você não escolheria para ser seu amigo. É o famoso “engolir sapo”. Se você quer que a sua vida melhore no trabalho, se você quer que as suas demandas sejam atendidas e se quer ganhar mais, você precisa aprender a se relacionar bem com todos, principalmente com quem tem o poder de decidir a seu favor. A relação assimétrica do Andy com o diretor da prisão lembra muito a relação assimétrica de um analista com o seu diretor: o diretor fala o que quer para o analista, mas o analista mede bem as palavras antes de falar com o diretor.

Outra semelhança bizarra é com o Brooks, velhinho que já passou mais de 50 anos na prisão e então ganha o direito condicional de viver em liberdade. E ele surta com a liberdade. Não sabe como viver nesse novo mundo. Tragicamente prefere o suicídio. É aí que o Red solta a frase mais incrível do filme:

“Esses muros são estranhos. No começo, você detesta. Depois, se acostuma. Quando passa muito tempo, você passa a depender deles.”

Quem não conhece uma pessoa que foi obrigado a se aposentar e não sabia mais como viver sem o trabalho? As pessoas se acostumam tanto com a rotina de trabalho que ficam dependentes dela. Muita gente associa o seu valor ao salário que pinga todo mês, a sua identidade ao seu cargo. É comum pessoas mais velhas enfrentarem crises de identidade quando se aposentam. Algumas tristemente ficam apenas esperando pela morte, não tem mais sonhos, planos…

E por fim, a mensagem mais linda, é que a rota de fuga é construída aos poucos. O Andy é muito sábio no sentido que não toma riscos exagerados (escolhe uma marreta bem pequena), não se desespera (não tenta fugir sem um plano) e não desiste. E é a mesma coisa com a busca de FIRE. Você não deve tomar riscos exagerados investindo em coisas que não conhece ou que prometem lucro rápido. Você não deve se desesperar e pedir demissão da noite pro dia, sem ter um plano bem elaborado sobre como vai pagar suas contas daqui pra frente. E por fim, é um processo trabalhoso e que toma tempo. Você não pode desistir. Um patrimônio que te permita FIRE é construído dia após dia, assim como o túnel do Andy.

A cena quando ele finalmente está livre e grita aliviado é de arrepiar. É impossível alguém que “foi preso” por azar (dado que não ganhamos na loteria de nascer com herança, rs) não sentir uma empatia enorme com esse momento!

9 Comentários

  • ABM

    Gosto muito deste filme. Nunca tinha pensado nesta analogia, faz muito sentido. Sempre achei forte a nomeclatura que eles dao aos detentos que se tornaram dependentes do sistema prisional: “institucionalizados”. O que não deixa de se aplicar a um contexto de emprego e trabalho como vc bem descreve.

    • sempresabado

      Verdade ABM! Essa nomenclatura também traduz muita coisa né!
      Aliás, lembrei de vc e do seu receio de grande perda financeira no começo da vida FIRE. Pq antes dele se libertar tem que passar pelo esgoto! Mesmo há poucos passos da liberdade, ainda há desafios né?

      • ABM

        Pois é Elsa, bem por aí. Por mais que a situação atual não seja a ideal, você já está adaptado, tem muita coisa sob controle. O novo, por mais atrativo, traz riscos e incertezas. E a transição de uma situação para outra nem sempre é fácil.

    • sempresabado

      Que bom que assistiu de novo! Faz muito sentido né?
      Boa sorte nesse final! Já vai sonhando com o seu “grito” de liberdade! Rs

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