Elsa,  Investimentos

Vale a pena contribuir para o INSS?

Uma amiga que está migrando da carteira assinada para uma carreira de autônoma me fez essa pergunta. Como ela está correndo atrás de um sonho, ficará alguns meses sem renda, então ela pode escolher nesse meio tempo.

A minha resposta automática foi: “não!”. No meu caso eu sou obrigada a contribuir para o INSS porque exerço um trabalho remunerado. Mas se pudesse escolher, preferiria investir esses R$642 por conta própria e longe dos riscos desse sistema.

No caso dela, como não terá renda por um tempo, ela pode escolher*. Como já contribuiu por 10 anos pelo teto do sistema, será que vale continuar contribuindo?

Mas falar para alguém que não vale a pena pagar mil reais por mês por 30 anos pra ter uma renda de 5 mil por mês pro resto da vida, parece coisa de doido. Então resolvi fazer as contas para ela!

Hoje ela tem 32 anos. Se continuar contribuindo com o teto pelos próximos 30 anos, que para autônomo custará R$1.167,89 por mês, ela poderá receber o teto do benefício (R$5.882,92)** aos 62 anos de idade (já supondo que a reforma da previdência proposta atualmente seja aprovada no congresso)

Mas e se ela investisse esse dinheiro sozinha? Com qual renda ela poderia contar?

Vamos supor que ela tenha um rendimento real de 5% nos próximos 30 anos. Se ela investisse todo mês a contribuição máxima do INSS, teria um total de R$930 mil investidos. Supondo que ela tenha um retorno real líquido de 4% durante a aposentadoria e que ela consuma todo esse investimento, ela teria uma renda mensal de R$4.480,00 aproximadamente. Assim o INSS ganharia…

Além disso, a contribuição ao INSS é quase um seguro de vida. Se você ficar doente ou inválido, pode antecipar o recebimento desse benefício mensal.

Ainda assim, não sei se continuar contribuindo com o INSS é a melhor opção.

Primeiro porque mesmo com a aprovação da reforma da previdência que está tramitando no congresso, o sistema não vai fechar as contas no longo prazo. O problema da previdência não vai se resolver se a corrupção acabar e nossos políticos resolverem fazer as coisas direitinho. O problema é demográfico: cada ano que passa, tem um número menor de jovens pagando os benefícios dos idosos. É o envelhecimento da população que é O problema. Então provavelmente teremos mais algumas reformas da previdência nos próximos 30 anos, que podem mexer inclusive no valor do benefício. Então basicamente você estará contribuindo para receber um valor muito incerto!

Segundo que contribuir para o INSS para ter um seguro caso fique doente ou inválido também corre o risco de ter o sistema alterado no futuro. Talvez um seguro de vida em uma instituição financeira competente vai te custar menos e te dar mais garantias quanto ao benefício nesses casos. Algumas até te devolvem uma parte do dinheiro ao final de um prazo caso você nunca utilize o benefício.

E terceiro que a melhor coisa nessa vida é ter liquidez. O que você prefere? Chegar aos 62 anos de idade com R$930 mil investidos ou dependendo de um pagamento de um governo não lá muito confiável?

É claro que para nós que buscamos a independência financeira, sabemos que a melhor coisa é dinheiro rendendo e pagando nossos custos de vida, sem depender de ninguém, inclusive do governo.

E vocês, o que responderiam para a minha amiga?

* Todo trabalhador com renda deve contribuir para o INSS. Se você não é um trabalhador com carteira assinada, vale consultar um contador para saber qual a melhor opção para o seu caso.

** O teto do benefício do INSS é reajustado pela inflação medida pelo INPC. As contribuições são reajustadas pelo salário mínimo, que por sua vez também é reajustado pela inflação. Para simplificar, fiz todas as contas supondo valores e retornos reais. Ou seja, daqui 30 anos a sua contribuição vai ser maior por conta da inflação, assim como o seu benefício, o seu investimento nominal e o retorno nominal desse investimento.

12 Comentários

  • Futuramente Rico

    Vocês que pensam em independência financeira esperam receber os benefícios de aposentadoria do INSS? Nunca vi ninguém explicando essa parte.

    • sempresabado

      Oi FR, tudo bem?
      Obrigada pelo comentário!
      Eu não coloco na minha conta.
      Se lá pra frente eu ainda conseguir receber alguma coisa pelo INSS, vou tratar isso como bônus.
      Mas como expliquei no post acho que o benefício é tão incerto de um sistema que não funciona, que não vale contar com essa ajuda não. Melhor fazer as contas sem!

  • AA40

    Interessante Muquirana. Nunca parei para fazer as contas segundo a nova previdência mas é realmente interessante ver que ela pagaria mais que uma TSR4%. Como bem comentou, as contas não fecham pois investimentos do INSS dificilmente renderiam 4% real com toda a máquina para sustentar.

    Além da incerteza e total iliquidez, mesmo teoricamente rendendo mais, as incertezas tiram a atratividade a meu ver e não contribuiria não, tlvz o mínimo, já que não conto com INSS (ou SSA) nos meus cálculos mas poderá ser um extra muito bem vindo lá no futuro.

    • sempresabado

      Oi AA! É a Elsa dessa vez rs

      É isso mesmo, pra mim os principais riscos são em relação a um sistema falido. É como investir em uma empresa constantemente em prejuízo que não tem perspectiva de melhora por questões demográficas!

  • Anônimo

    Nao existe a obrigatoriedade da contribuicao para o autonomo tb? Se existir, o valor eh automatico pelo valor declarado/nota/recibo, nao tem como escolher minimo ou maximo.

    Contrata um advogado para ver a melhor tributacao, talvez uma ME? Paga o minimo de INSS dentro da lei, a diferenca dos 1167 investe em IPCA+. Dorme tranquilo fazendo o certo dentro da lei, com seguro INSS e diversificando.

    Ninguem sabe como vai ser o INSS daqui a 30 anos, e se melhorar? Se for uma alternativa pra um TD que falhou tb?

    Um pouco em cada coisa diminui o risco uma vez que nada eh certo. Alias, ela precisa investir mais do que somente os 1167, certo? Senao nao vai dar mesmo.

    Diversifica, compra um pouco de tudo que tenha valor, inclusive o INSS que sim, tem seu valor. Pequeno, mas tem.

    • sempresabado

      Bom ponto Anon!

      Eu achava que era obrigatório apenas para CLT. Mas vi que TODO trabalhador com renda deve contribuir. E realmente não aconselho ninguém a ficar fora da lei, gosto de seguir regras rs.

      Ainda assim, minha amiga está se jogando em um sonho que não trará renda para ela de imediato, pelo menos por um tempo. Mas quando tiver renda concordo que o melhor é ter um contador pra auxiliar!

      Agora para o FIRE sem trabalho remunerado, como não é obrigado, acho que não compensa contribuir… talvez essa diversificação que você falou, mas sinceramente, prefiro diversificar investindo em sistemas mais seguros que o INSS!

  • Executivo Investidor

    Interessante Elsa, eu nunca parei para fazer esse tipo de conta. Mas creio que voce esta deixando de considerar um ponto super importante. O teto do INSS tambem é corrigido anualmente, juntamente com as contribuicoes. Dessa forma fiz uma simulacao aqui bem rapida numa planilha e em 30 anos se considerarmos um reajuste nas contribuicoes e no teto de 3% ao ano (esse ano o reajuste foi de 3,43%) teriamos uma aposentadoria de pouco mais de R$14mil por mes. Em contra-partida se aplicassemos os valores da contribuicao assumindo 4% ao ano durante os mesmos 30 anos teriamos um saldo acumulado de pouco mais de R$1 milhao. Considerando uma rentabilidade de 0.5% ao mes nesse montante daria uma renda mensal de quase R$6mil.

    Claro que ate la as regras podem mudar novamente e isso acho que deve ser levado em conta. Creio tambem que 4% de rentabilidade é muito pouco. Mas para termos os mesmos R$14mil teoricos teriamos que ter uma rentabilidade de 9% ao ano.

    Abs!
    Executivo Investidor
    http://www.executivoinvestidor.com

    • sempresabado

      Oi EI!

      Acho que não ficou claro, mas eu fiz todas as contas supondo valores reais, pra simplificar!

      Esses reajuste do benefício foi por conta da inflação (o INPC de 2018 foi de 3,43%). O benefício sobe, mas a contribuição também sobe por conta da inflação embutida no reajuste do salário mínimo.

      Por isso que a rentabilidade de 4% pareceu pouco! Esse é o retorno real, já descontado a inflação. Se você colocar uma inflação de 5%, já chega nos 9% de retorno que você comentou.

      Acho que o principal risco mesmo é que é um sistema muito instável! Vai sofrer muitas alterações e com certeza esse benefício será reduzido (em termos reais).

      Um abraço!

  • M.Marins

    Que bom que voce trouxe esse tema. Eu tinha feito uma conta aqui e pelos meus calculos, considerando as novas regras da aposentadoria, eu entro em Fire uns 2 anos anos de completar o tempo minimo de 20 anos para ter direito a 60% do que teria se trabalhasse por 35 ou 40 anos. Meus calculos mostram que eu com 65 anos e minha esposa com 62 teriamos um acrescimo de 50% na nossa renda passiva a partir dessa epoca. Bom nao? Esses 2 anos que faltarem para completar 20 anos eu podia recolher ou trabalhar mais um pouquinho la na frente so pra garantir. De qualquer forma, isso nao entra nos meus calculos, mas ja tenho 12 anos pagando isso, entao e uma incerteza boa.

    • sempresabado

      Boa Marins! Oq vier é lucro né?
      Eu tb não coloco benefício do INSS nas contas. Se só precisar contribuir por mais 2 anos, talvez até faria. Mas se as regras mudarem muito, precisa avaliar a relação custo benefício tudo de novo!
      Meu ponto principal é esse: acho que ainda vai rolar muita mudança! E avaliando o sistema como um todo, acho difícil os benefícios se manterem. O mais provável é que sejam reduzidos…
      Abs!

  • ABM

    Eu acho que vale a pena observar qual o tempo mínimo de contribuição para se ter acesso a algum tipo de benefício que será definido com essa reforma. E ai avaliar a situação caso a caso, considerando o tipo de vinculo empregatício e o número de anos que a pessoa já contribuiu. Eu acho um risco contribuir por 40 anos pelo teto, se você não é obrigado. Acho difícil que o governo, dada a situação das contas, mantenha aumento real das aposentadorias para além do reajuste da inflação, para quem tem benefício maior que o salário mínimo. O salario mínimo segue a regra, por enquanto, de corrigir a inflação mais o crescimento real do PIB. Basta ver que a tabela do IR anda sem reajuste de inflação desde 2015 para ver o que pode acontecer quando a coisa aperta. Sobre seguro de vida privado, acho que vale a pena se você tem dependentes e está em fase inicial de construção de patrimônio.

    • sempresabado

      Oi ABM!
      Meu medo da avaliar o tempo mínimo de contribuição é que em 30 anos, ele também pode sofrer alteração. É um jogo com regras muito incertas.

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